Domingo, 8 de Janeiro de 2012

baladas / badaladas / bagatelas


Outono. Vue d’ensemble. Uma águia sobrevoa os Pirineus em busca de uma presa. Condensa quilômetros de visão num só olhar. O verde e o amarelo das primeiras folhas caídas. Os picos nevados da fronteira. Ela plana e enxerga os mais mínimos detalhes. Os rastros de um cavalo na estrada. Os cogumelos nas árvores. As pessoas dentro de casa.

Uma pessoa diante do computador. Ela abre uma janela, na janela abre abas, nas abas lê textos que levam a outras abas. Ela abre um documento word, escreve um fragmento incompleto, e decide tomar banho. Come um pedaço de sanduíche e deixa o resto. Toma um gole de café e deixa o resto. Acende um cigarro e tem uma idéia para outro texto. Escreve um trecho e deixa incompleto. O cigarro apaga. Ela olha pela janela e presta atenção no som das buzinas.

Ele toma um café numa praça da cidade. Escreve frases, palavras isoladas em pedaços de papel. Ele faz bolinhas com fragmentos de texto e coloca tudo num envelope. Fecha os olhos e se deixa queimar pelo sol da montanha. Toca o sino da igreja.

Eu abro a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Etc.

Um caçador distribui armadilhas no bosque.

Um menino vai catar cogumelos na floresta. São vários tipos de cogumelos e é a primeira vez que ele sai para colher. Como ele não sabe reconhecer as espécies, ele pega tudo o que encontra. Cogumelos brancos e compridos com um anel no caule. Cogumelos cinzas com bolinhas brancas. Cogumelos de cabeça achatada com bordas roxas e centro alaranjado. O seu amigo assovia e ele volta ao ponto de encontro. O outro menino fica impressionado com um cogumelo laranja dentro do saco. Ele diz que é caro e difícil de encontrar. Mais caro que saboroso, ele diz. O menino fica orgulhoso. O outro diz que ele foi idiota de continuar catando cogumelos de todos os tipos quando tinha encontrado um valioso. Que devia ter assoviado para que explorassem juntos o terreno dos laranjas. Pergunta se ele conseguia se lembrar do lugar onde tinha encontrado. Ele diz que não e, descendo a estrada, continua orgulhoso com o enorme e único cogumelo laranja.

Os predadores costumam olhar de frente e com precisão. Já as presas olham para todos os lados, tentando descobrir de onde virá o predador. Os seres humanos passam constantemente de uma condição à outra.

Uma pessoa pensa na sua formação enquanto escreve uma carta para a faculdade. Eu falo quatro línguas e posso ler outras duas. Eu estudo algo entre a antropologia e a história das cidades. Eu me formei em história, em cinema, em harmonia funcional, em filosofia. Eu escrevo e faço filmes buscando uma interseção entre as artes e as ciências humanas. Um híbrido entre o ensaio, o conto e a crônica. Entre a narrativa e... Os meus temas são : a religião, a psicogeografia, as cidades, os jardins, os metrôs, a memória, o pensamento arcaico. Tudo é futuro e pré-histórico. Basicamente, o que me interessa é a relação entre tecnologia e mitologia, entre ciência e xamanismo, entre técnica e pensamento... Ela pára de escrever e observa as reticências. Apaga tudo e acende um cigarro. Se lembra vagamente de uma frase que busca na Internet. Formation signifies something like a layer of the Earth, geologically formed and deformed by and through the Earth’s evolution. A minha formação, ela pensa. Seria melhor dizer “a minha deformação”. Toda deformação anuncia uma catástrofe, a quebra irreversível de uma estrutura em outra. Não há formação sem terremoto.

Aprofundar-se em algo significa ir fundo, descer, cavar, buscar informações mais detalhadas e encontrar pedras, ossos, fósseis, plástico, gases e animais em decomposição. Mas podemos também dar de cara com lençóis freáticos e objetos preciosos. Normalmente descemos buscando cristais e voltamos com um sapato sem par. Tem gente que se perde e não volta mais. Tem gente que descobre que as grutas não passam de um trompe l’oeil. Outras se deixam enganar voluntariamente. Tem gente que morre de medo quando a luz apaga. E tem gente que não quer mesmo voltar. Parece que elas sentem um enorme prazer em conversar com os mortos. Essas parecem se apoiar naquela frase que diz que “a noite é também um sol”.

Ela desce à cave e começa a retirar as teias de aranha para enxergar melhor, buscando um brilho perdido nos móveis. Um espelho.

Um tesouro está enterrado justamente embaixo de um miserável que pede dinheiro na rua. Alguém busca um tesouro pelo mundo afora e ao voltar descobre que o tesouro estava debaixo da sua própria casa. E, inversamente, depois de percorrer vários mundos, Gilgamesh encontrou a planta da imortalidade, mas já perto de casa, de um buraco saiu uma serpente que abocanhou a erva e desapareceu.

Uirá foi um índio que saiu em busca de Tupã e só encontrou cidades miseráveis. Depois de muito se perder decidiu voltar. Mas a sua tribo não era mais a mesma e ele não suportou a idéia de voltar fracassado. No caminho se lançou numa lagoa cheia de piranhas e morreu.

O caçador ouve o barulho de um tiro que parece ter sido disparado em sua direção.

Uma síntese e um sistema não são a mesma coisa. Eles podem se cruzar, mas não são a mesma coisa. Tanto os sistemas quanto os fragmentos são duros. De um lado um caco de vidro pequeno (que é difícil de partir). Do outro uma pirâmide (que é difícil de derrubar). Há sínteses duras, mas há também sínteses frágeis, tênues, e que não possuem centro. O difícil é acreditar numa síntese sem centro. Ou que a fragilidade é algo positivo. O castelo de cartas está prestes a desmoronar. Um sopro e ele desmorona.

As pessoas dizem que eu escrevo teoria, que eu faço teoria, que eu sou teórica, que eu serei uma boa teórica. Eu desconfio. A palavra teoria está relacionada à observação. Como uma águia que sobrevoa a montanha antes de descer para caçar. Eu pelo contrário gostaria de encontrar uma palavra que se referisse a uma forma táctil do pensamento. Tatear no escuro, com as mãos e não com os olhos. Escrever e observar com as mãos. As mãos têm memória curta.

A águia parece avistar um coelho.

Ela bebe menos, ela busca um tema para a sua tese. Ela tem um namorado, ela quer uma filha. Só falta encontrar uma cidade. Mas ela não encontra a cidade.

Ela abre o envelope que chegou na portaria. São bolinhas de papel. Ela espalha na cama e começa a abrir uma por uma. São fragmentos de texto que nem sempre se conectam, mas que dão uma sensação de outono, de café, de praça ensolarada.

A águia avista uma presa, e desce...

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Mein digitaldoppelgänger
(
http://grooveshark.com/#/album/Cluster+II/3513874 )

Stop Worrying and Love the Bomb
(Stanley Kubrick)

Faut-il être mort?
(Level 5, Chris Marker)


<<< O PC está para a eletricidade assim como
o LSD para a química >>>



Há tempos diante da luz fria, já não consigo discernir o meu olho da tela, a retina do minério, a vida da morte.

Sim. Eu estava online quando encontrei Marker. Ele também estava on. Do seu lado direito eu vi Krasna, do esquerdo Hayao. O seu rosto era o rosto de Laura olhando para a câmera : Lucas, você está aí? Sentamos sobre os trilhos, tomamos ayahuasca juntos e ele me deu um conselho. Lance todas as suas memórias no computador. Vídeos, fotos, textos, livros, imagens da infância e da adolescência, projeções futuras. Passe o caderno dos sonhos no scanner, os odores também, o cheiro dela, o gosto amargo da boca dela. As línguas que você fala, lance tudo no computador. Ele vai pegar, juntar e mover tudo na velocidade da luz. Ele vai cozinhar as suas memórias num enorme mingau. “Mingau” que na sua língua já não quer mais dizer “sopa de tripas”, mas “sopa de bites”. É a mesma coisa. Um caldo sem organização possível, sem estratos. Daí surgirão parâmetros e a partir de então as coisas voltarão a se agenciar. A vida. Sim. It’s alive.

Eu perguntei então se ele tinha encontrado o que buscava, se a morte tinha deixado de ser absoluta de acordo com o seu culto, se o cinema tinha nos libertado. Ele disse que não somos mais os mesmos depois da ressurreição à base de eletrochoques. Preste atenção nesta Gorgó – e apontou para a luz fria –, a morte está mais viva do que nunca, ele disse. Hayao sorriu o sorriso branco do gato da sorte. Krasna levantou as suas asas de coruja. Laura foi embora pelo túnel da Petite Ceinture que passa embaixo do Père Lachaise.

Acordei quando amanhecia. A janela tremia com a chuva e o vento. As nuvens pareciam um mar ao revés. As ondas liberadas pelo sonho estavam sendo captadas pelo eletroencefalograma. Durante intervalos irregulares as linhas pareciam delinear a forma de um rosto. Tomei um café, acendi um cigarro e comecei a fazer exatamente o que ele tinha me dito. Lancei os dados no programa. Todas as minhas memórias, todos os meus desejos, todas as minhas projeções futuras. Enquanto trabalhava não podia esquecer o rosto de Laura olhando para a câmera.

Entrei no metrô, caminhei pela cidade. Tudo estava sendo captado. Assisti televisão durante 16 horas seguidas, simulando uma meditação para que as ondas α fossem interceptadas e algo por detrás se revelasse. O programa calculou durante horas até que encontrou uma variação paramétrica, uma espécie de matéria-fluxo que era a minha própria essência vaga, uma quantidade determinada de Lucas possíveis. Sim. O meu nome já continha esse plural. Dizer que vivemos numa selfculture é dizer que vivemos na cultura dos outros. Eu sou um outro. O inferno são os outros. Cada ser é um coletivo de seres. Uma compilação movente, uma heterotopia (todas as classificações a classificação). Até que...

A minha conta, a minha vida, a minha relação com os outros, os meus reflexos, tudo parece estar sendo customizado. Eu mesmo sou uma customização de massa. A história de uma vida não cessa de ser reconfigurada (digamos deformada) por todas as histórias verídicas e fictícias que alguém conta sobre si mesmo. A minha história está emaranhada às de todos vocês. Me lembro daquela voz que cuando digo usted, usted no existe para mí, y sin embargo, vaya si existe, porque somos este encuentro desde tiempos y espacios distintos, una anulación de estos tiempos y estos espacios, y eso es siempre la palabra y la poesía – um curto circuito. Aberto / fechado / aberto. Um sinal. Uma vibração.

A partir de então o computador começou a expandir a minha personalidade, baixando músicas e textos, fotos e filmes de acordo com os meus hábitos por ele captados. Ele me desdobrou e desdobrou. As minhas senhas foram inseridas no programa. O meu blog, a minha conta de banco, o meu e-mail, o meu telefone, o meu skype (o último refúgio da aura). A partir daquele dia em que decidi me inserir no programa, deixei de existir e fui substituído por um outro. Um autômata, uma espécie de demônio de cobalto. Um djin.

Primeiro, da soma de todos os dados surgiu um esqueleto de imagens fixas, um cadáver, cinzas. Mas ao accionar o programa generativo o cadaver se animou. Ele estava vivo. Eu estava diante do meu doppelgänger computadorizado, sinal da minha morte iminente. Um CsO. Um verdadeiro Frankenstein modelado através da massa descaracterizada de todos os meus desejos e todas as minhas lembranças. Como se eu fosse uma Invenção de Morel inserida num programa generativo. Qual a diferençao entre uma vida e uma memória que se recompõe permanentemente através de deformações topológicas?

A mecânica dos flúidos e seus turbilhões arruinaram a retórica, a geometria, a memória de longa duração. A arte da memória estava baseada numa arquitetura sedentária de lugares fixos, através dos quais distribuíamos imagens-lembranças. Ao percorrer essa forma geométrica éramos capazes de lembrar da nossa vida como se tratasse de um palácio construído pela retórica. Agora, quando o castelo desmoronou, os lugares começaram a ganhar vida. A memória parece ter se deslocado, tornado-se matéria-fluxo. Num processo de inverção dos valores, a longa duração passou a estar subordinada à curta duração. A bomba desestabilizou tudo. É como se no palácio da memória tivessemos encontrado a chave de um quarto sempre trancado. Do lado de dentro os móveis empilhados apodreciam. Teias de aranha e poeira escondiam um enorme espelho. Até que sopramos e passamos para o outro lado.

Agora, o que somos nós se não, justamente, uma memória viva em permanente variação? Coloco no computer toda a memória de longa duração da minha curta vida. Ele gera parâmetros e desenha as sinapses, as micro-fendas que darão liberdade ao doppelgänger. O programa lança as imagens fixas do palácio nos fluxos viscosos do rio Lethe. O rio digital. Um rio gosmento que passa pelo subterrâneo da cidade. O rio do esquecimento entre as catacumbas e o palácio da memória.

O computador é ele mesmo uma contradição, a de querer ter memória e ao mesmo tempo submetê-la a uma possível desaparição. Mas é daí que surge uma arte da memória que escapa à consciência, que é trabalhada pela matéria mesmo do tempo, se ordenando expontâneamente em hélice. Uma arte da memória frágil, tênue, não pirâmide, mas fios da virgem, babas do diabo. Uma mnemotécnica anti-clássica.

Eu vi então que por dentro todos somos screensavers de onde emanam imagens da nossa infância. Entre o ícone e o abstrato, entre a inflação e a valorização da imagem. Chamas artificiais. Variações barrocas emitidas por cordas vocais girando ao redor de uma mesma partitura. Um corpo amorfo traçando caminhos. Distribuindo. Um agregado de imagens-texto saindo da matéria eletrônica. Um misto de fabulação e experiência viva. Um parâmetro móvel, ele mesmo variação. Um gênero cambaleante para várias espécies de Lucas. Formas mutantes para matérias-fluxo.

Diante dessa imagem adormeci. No dia seguinte acordei esquecido de tudo e me deparei com uma paisagem digital. Nenhuma superfície era neutra, todas eram deformações geológicas onde determinadas forças teriam sido armazenadas. Deformações topológicas que nos indicavam caminhos possíveis. Montanhas formadas por textos e imagens. Blobs. Montanhas que pareciam de metal derretido e que se mexiam de acordo com os meus passos. Um palimpsesto vivo. Aquilo era eu. Uma paisagem formada por catástrofes de há cem mil anos. Uma Zona, não um individuo. Um mar de silício de viscosidade variável.

Caminhando senti um enorme prazer que beirava a loucura. E pensava que agora a vida é ela também a vitória do inorgânico sobre o orgânico. Eu sou um lugar e um lugar a gente freqüenta, a gente vibra para torna-lo espaço. Espaço é aquilo que surge quando se atravessa um lugar. Sim. Eu sou uma Zapping Zone. Um cabinet de curiosité feito paisagem mutante. Um terreno baldio do palácio da memória. Uma essência vaga onde crescem vegetações parasitas. Quem por aqui entrar não pode voltar pelo mesmo caminho. Ainda que sintamos o fio de Ariadne estremecendo no bolso.

Eu sou a Zona que se alimenta das lembranças dos homens e das ruínas dos seus hábitos. Como uma Hidra de Lerna, uma constelação formada por estrelas tão fracas que parece uma nebulosa. Um ser de várias cabeças que se regenera permanentemente diante dos golpes da cidade. Uma serpente cancerígena. Um outro. Um doppelgänger que caminha através do plano astral. Ele mesmo é necrópole, galeria de máscaras. Ele que desce à tumba e a tumba que surge com a sua descida. O esquecimento erigido em labirinto. Voilà un trou. Voilà un autre trou.

E caminhando sou um stalker que avança furtivamente distribuindo armadilhas, perseguindo e acossando, um arpenteur em busca da câmara dos desejos, impossível centro do labirinto sem muros.

O psicagogo estava certo. São Lázaro das catacumbas digitais. Vivemos em softwares, galerias subterrâneas de uma grande mina abandonada. Tive dúvida se agora não estaria para sempre dentro daquele sonho, daquele túnel, se teria ou não voltado. Há muito tempo quis descer às catacumbas dessa cidade sem perceber que já me encontro nos seus corredores. Meditando imagino a superfície. Qual superfície? Ela permanece uma questão em aberto. Não sabemos se é o nível do mar, das ruas, a cobertura dos prédios, mais acima, muito mais, um mais-além.

Ouço ondas se estrelando na areia da praia e penso. Me apagarão assim que surgir um desastre ainda maior que o meu e que me anule. Um tsunami digital. Um trem de sombras que nos faça voltar de longe. E abrirei a porta de casa, e não haverá ninguém do lado de dentro, e no segundo andar talvez encontrarei um quarto cheio de bromélias.

Quando eu morrer, ou quando o Lucas do skype morrer, as minhas contas se tornarão runas pulsantes, lápides que continuarão vivas no meu lugar (e sobre elas o orvalho digital). Um cemitério de signos caminhando pela cidade. Um texto areia movediça. Sim. Quando eu morrer me tornarei diagrama.

***

Esse texto mesmo já não foi escrito por mim, mas pelo programa. O último, o entre-meio, o primeiro de muitos.

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

uma testa franzida / um texto

um cigarro / um isqueiro
um livro / um caderno
um café / uma caneta
duas mãos / dois olhos

duas nádegas / um estômago
duas pernas / um pênis
um pulmão / um coração
uma idéia / uma boca

preto / vermelho
branco / branco
preto / preto
cor de pele / verde

cor de pele / marrom
cor de pele / mucosa
roxo / roxo
incolor / mucosa

pequeno / pequeno
grande / pequeno
pequeno / pequeno
grande / pequeno

grande / grande
grande / médio
grande / grande
pequeno / grande

tabaco / gás
papel / papel
líquido / plástico
dedos / retina

colesterol / comida
osso / sangue
ar / sangue
eletricidade / fala

quê mais ?
por onde ando? normalmente pelo 18ème arrondissement dobrando em cada esquina num zig zag sem fim. comendo um sanduíche de pois chiche a dois euros em barbès enquanto observo o movimento. todos ali reunidos : bombeiros, policiais, ambulância e funcionários da ratp revistando os argelinos. chegam duas motos com policiais anos 80. tudo soltando fumaça e vapor. os argelinos parecem até rir. termino o sanduíche e vou caminhando em direção à rue lamarck para explorar uma área do 17ème que não conheço direito. no caminho tenho vontade de entrar nas entranhas do metrô. do lado de fora faz frio. nem tanto. 2 graus. ao invés de descer, entro naquele primeiro pmu que conhecí da cidade. tomei um café no balcão, observando cada um com sua mania. e mais adiante uma livraria curiosa. na vitrine apenas fotos, de forma que ao invés de vermos o interior através do vidro, vemos apenas um muro opaco de fotos que nos mostram como deve ser o interior, ou como foi o interior há 20 anos atrás. e ainda o café de la rotonde, onde aprendi a jogar na loteria. finalmente alcancei o 17ème, esse bairro fronteira entre o leste e o oeste da cidade, entre a resistência e os colaboradores nazi. e comecei a dar voltas ao redor do triângulo entre avenue de saint-ouen e avenue de clichy. na rue davy parece que a metade dos prédios estão abandonados e viveram incêndios há pouco tempo. mais adiante justamente alguns obreiros fechavam as janelas de um prédio incendiado com tijolos de concreto. deve ter sido um squat que pegou fogo. dessa vez senti falta do mapa porque andava procurando uma saída do metrô (da linha 13 talvez), uma saída que dava numa pracinha pequena que não consegui encontrar de novo. não sei porquê me vinha esse dia de outono à cabeça, essa pracinha vazia e a escada do metropolitano... rue de la jonquière. entre uma farmácia e uma lavanderia entro num pátio que parece não ter fim, até que lá no final aparece uma garagem para concerto de camiões. e voilà. mais uma vez a nossa querida petite ceinture. um trecho apenas desse laço que ao invés de apertar a cidade, amplia, amplia, e desenha nesse centro acabado uma linha de fuga. aqui de um lado o maior terreno baldio de paris (onde querem construir uma cité verte mas parecem exitar diante da explosão da linha 13, a mais saturada de paris) e do outro um túnel escuro onde não se vê o fim (não sei se por estar fechado ou se por ser curvo). e de novo a avenue de saint-ouen, onde dessa vez todas as luzes etavam acendidas. neons vermelhos dos bares e tabacarias, neons verdes das farmácias, neons rosas e azuis dos locutórios. as luzes dos carros e das milhares de micro-lâmpadas de natal. no final da rua, depois do enorme M da estação porte de saint-ouen, lá ao longe, provavelmente diante do périph', uma luz estranha, um outdoor talvez. me aproximei para ver o que era e aonde me levaria tanta perspectiva e tanta eletricidade. senti uma espécie de excitação estranha quando percebí que se tratava de um ipad gigante, um anúncio que mais parecia um ciclope diante do anel viário da cidade. e comecei a voltar sobre os meus paços, e virei à esquerda na rue leibniz. nunca tinha percebido aquela estação abandonada da petite ceinture sobre a avenida. o edifício não era especialmente bonito, suas janelas também fechadas com tijolos de concreto (algumas estações da petite ceinture já foram ocupadas e as ocupações já foram expulsas). mas as plataformas sim (tanto graffitti) emanavam uma temporalidade estranha com as colunas de ferro ali sustentando a rua, essa mesma rua por onde andamos agora distraidos ou apressados sem olhar pra baixo. mais adiante outro túnel, com uma data talhada na entrada : 1889. e você me pergunta : por onde anda? continuei voltando seguindo o pequeno boulevard construido sobre o túnel, pensando em botar pilhas na minha lanterna para explorar aquele subterrâneo abandonado. mas virei à direita para voltar pelo cemitério de montmartre, evitando o mesmo boulevard ornano de sempre (evitando porte de clignancourt, simplon...). hoje está mais frio do que ontem. rue caulaincourt. pigalle. rue notre-dame de lorette. casa.

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

The face forgives the mirror

Eu te olho enquanto deixo a barba crescer. No terceiro livro está escrito que “não cortarás o cabelo nas têmporas, nem apararás as beiradas da barba”. Me lembro então daquele menino drogado dizendo “você tem um espelho? eu preciso de um espelho, eu preciso ver o meu rosto, há muito tempo que não vejo o meu rosto, eu preciso de um espelho, você tem um espelho?”. A gente se despede. A rua está coberta de luzes e mais fria que ontem. Acendo um cigarro e atravesso a cidade do terminal ao quadrilátero. A lua é um espelho embaçado pelo teu hálito, o teu cheiro na minha mão direita. Eu... eu... pego uma tesoura e observo. Venta. O tempo passa.