Outono. Vue d’ensemble. Uma águia sobrevoa os Pirineus em busca de uma presa. Condensa quilômetros de visão num só olhar. O verde e o amarelo das primeiras folhas caídas. Os picos nevados da fronteira. Ela plana e enxerga os mais mínimos detalhes. Os rastros de um cavalo na estrada. Os cogumelos nas árvores. As pessoas dentro de casa.
Uma pessoa diante do computador. Ela abre uma janela, na janela abre abas, nas abas lê textos que levam a outras abas. Ela abre um documento word, escreve um fragmento incompleto, e decide tomar banho. Come um pedaço de sanduíche e deixa o resto. Toma um gole de café e deixa o resto. Acende um cigarro e tem uma idéia para outro texto. Escreve um trecho e deixa incompleto. O cigarro apaga. Ela olha pela janela e presta atenção no som das buzinas.
Ele toma um café numa praça da cidade. Escreve frases, palavras isoladas em pedaços de papel. Ele faz bolinhas com fragmentos de texto e coloca tudo num envelope. Fecha os olhos e se deixa queimar pelo sol da montanha. Toca o sino da igreja.
Eu abro a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Etc.
Um caçador distribui armadilhas no bosque.
Um menino vai catar cogumelos na floresta. São vários tipos de cogumelos e é a primeira vez que ele sai para colher. Como ele não sabe reconhecer as espécies, ele pega tudo o que encontra. Cogumelos brancos e compridos com um anel no caule. Cogumelos cinzas com bolinhas brancas. Cogumelos de cabeça achatada com bordas roxas e centro alaranjado. O seu amigo assovia e ele volta ao ponto de encontro. O outro menino fica impressionado com um cogumelo laranja dentro do saco. Ele diz que é caro e difícil de encontrar. Mais caro que saboroso, ele diz. O menino fica orgulhoso. O outro diz que ele foi idiota de continuar catando cogumelos de todos os tipos quando tinha encontrado um valioso. Que devia ter assoviado para que explorassem juntos o terreno dos laranjas. Pergunta se ele conseguia se lembrar do lugar onde tinha encontrado. Ele diz que não e, descendo a estrada, continua orgulhoso com o enorme e único cogumelo laranja.
Os predadores costumam olhar de frente e com precisão. Já as presas olham para todos os lados, tentando descobrir de onde virá o predador. Os seres humanos passam constantemente de uma condição à outra.
Uma pessoa pensa na sua formação enquanto escreve uma carta para a faculdade. Eu falo quatro línguas e posso ler outras duas. Eu estudo algo entre a antropologia e a história das cidades. Eu me formei em história, em cinema, em harmonia funcional, em filosofia. Eu escrevo e faço filmes buscando uma interseção entre as artes e as ciências humanas. Um híbrido entre o ensaio, o conto e a crônica. Entre a narrativa e... Os meus temas são : a religião, a psicogeografia, as cidades, os jardins, os metrôs, a memória, o pensamento arcaico. Tudo é futuro e pré-histórico. Basicamente, o que me interessa é a relação entre tecnologia e mitologia, entre ciência e xamanismo, entre técnica e pensamento... Ela pára de escrever e observa as reticências. Apaga tudo e acende um cigarro. Se lembra vagamente de uma frase que busca na Internet. Formation signifies something like a layer of the Earth, geologically formed and deformed by and through the Earth’s evolution. A minha formação, ela pensa. Seria melhor dizer “a minha deformação”. Toda deformação anuncia uma catástrofe, a quebra irreversível de uma estrutura em outra. Não há formação sem terremoto.
Aprofundar-se em algo significa ir fundo, descer, cavar, buscar informações mais detalhadas e encontrar pedras, ossos, fósseis, plástico, gases e animais em decomposição. Mas podemos também dar de cara com lençóis freáticos e objetos preciosos. Normalmente descemos buscando cristais e voltamos com um sapato sem par. Tem gente que se perde e não volta mais. Tem gente que descobre que as grutas não passam de um trompe l’oeil. Outras se deixam enganar voluntariamente. Tem gente que morre de medo quando a luz apaga. E tem gente que não quer mesmo voltar. Parece que elas sentem um enorme prazer em conversar com os mortos. Essas parecem se apoiar naquela frase que diz que “a noite é também um sol”.
Ela desce à cave e começa a retirar as teias de aranha para enxergar melhor, buscando um brilho perdido nos móveis. Um espelho.
Um tesouro está enterrado justamente embaixo de um miserável que pede dinheiro na rua. Alguém busca um tesouro pelo mundo afora e ao voltar descobre que o tesouro estava debaixo da sua própria casa. E, inversamente, depois de percorrer vários mundos, Gilgamesh encontrou a planta da imortalidade, mas já perto de casa, de um buraco saiu uma serpente que abocanhou a erva e desapareceu.
Uirá foi um índio que saiu em busca de Tupã e só encontrou cidades miseráveis. Depois de muito se perder decidiu voltar. Mas a sua tribo não era mais a mesma e ele não suportou a idéia de voltar fracassado. No caminho se lançou numa lagoa cheia de piranhas e morreu.
O caçador ouve o barulho de um tiro que parece ter sido disparado em sua direção.
Uma síntese e um sistema não são a mesma coisa. Eles podem se cruzar, mas não são a mesma coisa. Tanto os sistemas quanto os fragmentos são duros. De um lado um caco de vidro pequeno (que é difícil de partir). Do outro uma pirâmide (que é difícil de derrubar). Há sínteses duras, mas há também sínteses frágeis, tênues, e que não possuem centro. O difícil é acreditar numa síntese sem centro. Ou que a fragilidade é algo positivo. O castelo de cartas está prestes a desmoronar. Um sopro e ele desmorona.
As pessoas dizem que eu escrevo teoria, que eu faço teoria, que eu sou teórica, que eu serei uma boa teórica. Eu desconfio. A palavra teoria está relacionada à observação. Como uma águia que sobrevoa a montanha antes de descer para caçar. Eu pelo contrário gostaria de encontrar uma palavra que se referisse a uma forma táctil do pensamento. Tatear no escuro, com as mãos e não com os olhos. Escrever e observar com as mãos. As mãos têm memória curta.
A águia parece avistar um coelho.
Ela bebe menos, ela busca um tema para a sua tese. Ela tem um namorado, ela quer uma filha. Só falta encontrar uma cidade. Mas ela não encontra a cidade.
Ela abre o envelope que chegou na portaria. São bolinhas de papel. Ela espalha na cama e começa a abrir uma por uma. São fragmentos de texto que nem sempre se conectam, mas que dão uma sensação de outono, de café, de praça ensolarada.
A águia avista uma presa, e desce...
Uma pessoa diante do computador. Ela abre uma janela, na janela abre abas, nas abas lê textos que levam a outras abas. Ela abre um documento word, escreve um fragmento incompleto, e decide tomar banho. Come um pedaço de sanduíche e deixa o resto. Toma um gole de café e deixa o resto. Acende um cigarro e tem uma idéia para outro texto. Escreve um trecho e deixa incompleto. O cigarro apaga. Ela olha pela janela e presta atenção no som das buzinas.
Ele toma um café numa praça da cidade. Escreve frases, palavras isoladas em pedaços de papel. Ele faz bolinhas com fragmentos de texto e coloca tudo num envelope. Fecha os olhos e se deixa queimar pelo sol da montanha. Toca o sino da igreja.
Eu abro a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Etc.
Um caçador distribui armadilhas no bosque.
Um menino vai catar cogumelos na floresta. São vários tipos de cogumelos e é a primeira vez que ele sai para colher. Como ele não sabe reconhecer as espécies, ele pega tudo o que encontra. Cogumelos brancos e compridos com um anel no caule. Cogumelos cinzas com bolinhas brancas. Cogumelos de cabeça achatada com bordas roxas e centro alaranjado. O seu amigo assovia e ele volta ao ponto de encontro. O outro menino fica impressionado com um cogumelo laranja dentro do saco. Ele diz que é caro e difícil de encontrar. Mais caro que saboroso, ele diz. O menino fica orgulhoso. O outro diz que ele foi idiota de continuar catando cogumelos de todos os tipos quando tinha encontrado um valioso. Que devia ter assoviado para que explorassem juntos o terreno dos laranjas. Pergunta se ele conseguia se lembrar do lugar onde tinha encontrado. Ele diz que não e, descendo a estrada, continua orgulhoso com o enorme e único cogumelo laranja.
Os predadores costumam olhar de frente e com precisão. Já as presas olham para todos os lados, tentando descobrir de onde virá o predador. Os seres humanos passam constantemente de uma condição à outra.
Uma pessoa pensa na sua formação enquanto escreve uma carta para a faculdade. Eu falo quatro línguas e posso ler outras duas. Eu estudo algo entre a antropologia e a história das cidades. Eu me formei em história, em cinema, em harmonia funcional, em filosofia. Eu escrevo e faço filmes buscando uma interseção entre as artes e as ciências humanas. Um híbrido entre o ensaio, o conto e a crônica. Entre a narrativa e... Os meus temas são : a religião, a psicogeografia, as cidades, os jardins, os metrôs, a memória, o pensamento arcaico. Tudo é futuro e pré-histórico. Basicamente, o que me interessa é a relação entre tecnologia e mitologia, entre ciência e xamanismo, entre técnica e pensamento... Ela pára de escrever e observa as reticências. Apaga tudo e acende um cigarro. Se lembra vagamente de uma frase que busca na Internet. Formation signifies something like a layer of the Earth, geologically formed and deformed by and through the Earth’s evolution. A minha formação, ela pensa. Seria melhor dizer “a minha deformação”. Toda deformação anuncia uma catástrofe, a quebra irreversível de uma estrutura em outra. Não há formação sem terremoto.
Aprofundar-se em algo significa ir fundo, descer, cavar, buscar informações mais detalhadas e encontrar pedras, ossos, fósseis, plástico, gases e animais em decomposição. Mas podemos também dar de cara com lençóis freáticos e objetos preciosos. Normalmente descemos buscando cristais e voltamos com um sapato sem par. Tem gente que se perde e não volta mais. Tem gente que descobre que as grutas não passam de um trompe l’oeil. Outras se deixam enganar voluntariamente. Tem gente que morre de medo quando a luz apaga. E tem gente que não quer mesmo voltar. Parece que elas sentem um enorme prazer em conversar com os mortos. Essas parecem se apoiar naquela frase que diz que “a noite é também um sol”.
Ela desce à cave e começa a retirar as teias de aranha para enxergar melhor, buscando um brilho perdido nos móveis. Um espelho.
Um tesouro está enterrado justamente embaixo de um miserável que pede dinheiro na rua. Alguém busca um tesouro pelo mundo afora e ao voltar descobre que o tesouro estava debaixo da sua própria casa. E, inversamente, depois de percorrer vários mundos, Gilgamesh encontrou a planta da imortalidade, mas já perto de casa, de um buraco saiu uma serpente que abocanhou a erva e desapareceu.
Uirá foi um índio que saiu em busca de Tupã e só encontrou cidades miseráveis. Depois de muito se perder decidiu voltar. Mas a sua tribo não era mais a mesma e ele não suportou a idéia de voltar fracassado. No caminho se lançou numa lagoa cheia de piranhas e morreu.
O caçador ouve o barulho de um tiro que parece ter sido disparado em sua direção.
Uma síntese e um sistema não são a mesma coisa. Eles podem se cruzar, mas não são a mesma coisa. Tanto os sistemas quanto os fragmentos são duros. De um lado um caco de vidro pequeno (que é difícil de partir). Do outro uma pirâmide (que é difícil de derrubar). Há sínteses duras, mas há também sínteses frágeis, tênues, e que não possuem centro. O difícil é acreditar numa síntese sem centro. Ou que a fragilidade é algo positivo. O castelo de cartas está prestes a desmoronar. Um sopro e ele desmorona.
As pessoas dizem que eu escrevo teoria, que eu faço teoria, que eu sou teórica, que eu serei uma boa teórica. Eu desconfio. A palavra teoria está relacionada à observação. Como uma águia que sobrevoa a montanha antes de descer para caçar. Eu pelo contrário gostaria de encontrar uma palavra que se referisse a uma forma táctil do pensamento. Tatear no escuro, com as mãos e não com os olhos. Escrever e observar com as mãos. As mãos têm memória curta.
A águia parece avistar um coelho.
Ela bebe menos, ela busca um tema para a sua tese. Ela tem um namorado, ela quer uma filha. Só falta encontrar uma cidade. Mas ela não encontra a cidade.
Ela abre o envelope que chegou na portaria. São bolinhas de papel. Ela espalha na cama e começa a abrir uma por uma. São fragmentos de texto que nem sempre se conectam, mas que dão uma sensação de outono, de café, de praça ensolarada.
A águia avista uma presa, e desce...


