Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

por onde ando? normalmente pelo 18ème arrondissement dobrando em cada esquina num zig zag sem fim. comendo um sanduíche de pois chiche a dois euros em barbès enquanto observo o movimento. todos ali reunidos : bombeiros, policiais, ambulância e funcionários da ratp revistando os argelinos. chegam duas motos com policiais anos 80. tudo soltando fumaça e vapor. os argelinos parecem até rir. termino o sanduíche e vou caminhando em direção à rue lamarck para explorar uma área do 17ème que não conheço direito. no caminho tenho vontade de entrar nas entranhas do metrô. do lado de fora faz frio. nem tanto. 2 graus. ao invés de descer, entro naquele primeiro pmu que conhecí da cidade. tomei um café no balcão, observando cada um com sua mania. e mais adiante uma livraria curiosa. na vitrine apenas fotos, de forma que ao invés de vermos o interior através do vidro, vemos apenas um muro opaco de fotos que nos mostram como deve ser o interior, ou como foi o interior há 20 anos atrás. e ainda o café de la rotonde, onde aprendi a jogar na loteria. finalmente alcancei o 17ème, esse bairro fronteira entre o leste e o oeste da cidade, entre a resistência e os colaboradores nazi. e comecei a dar voltas ao redor do triângulo entre avenue de saint-ouen e avenue de clichy. na rue davy parece que a metade dos prédios estão abandonados e viveram incêndios há pouco tempo. mais adiante justamente alguns obreiros fechavam as janelas de um prédio incendiado com tijolos de concreto. deve ter sido um squat que pegou fogo. dessa vez senti falta do mapa porque andava procurando uma saída do metrô (da linha 13 talvez), uma saída que dava numa pracinha pequena que não consegui encontrar de novo. não sei porquê me vinha esse dia de outono à cabeça, essa pracinha vazia e a escada do metropolitano... rue de la jonquière. entre uma farmácia e uma lavanderia entro num pátio que parece não ter fim, até que lá no final aparece uma garagem para concerto de camiões. e voilà. mais uma vez a nossa querida petite ceinture. um trecho apenas desse laço que ao invés de apertar a cidade, amplia, amplia, e desenha nesse centro acabado uma linha de fuga. aqui de um lado o maior terreno baldio de paris (onde querem construir uma cité verte mas parecem exitar diante da explosão da linha 13, a mais saturada de paris) e do outro um túnel escuro onde não se vê o fim (não sei se por estar fechado ou se por ser curvo). e de novo a avenue de saint-ouen, onde dessa vez todas as luzes etavam acendidas. neons vermelhos dos bares e tabacarias, neons verdes das farmácias, neons rosas e azuis dos locutórios. as luzes dos carros e das milhares de micro-lâmpadas de natal. no final da rua, depois do enorme M da estação porte de saint-ouen, lá ao longe, provavelmente diante do périph', uma luz estranha, um outdoor talvez. me aproximei para ver o que era e aonde me levaria tanta perspectiva e tanta eletricidade. senti uma espécie de excitação estranha quando percebí que se tratava de um ipad gigante, um anúncio que mais parecia um ciclope diante do anel viário da cidade. e comecei a voltar sobre os meus paços, e virei à esquerda na rue leibniz. nunca tinha percebido aquela estação abandonada da petite ceinture sobre a avenida. o edifício não era especialmente bonito, suas janelas também fechadas com tijolos de concreto (algumas estações da petite ceinture já foram ocupadas e as ocupações já foram expulsas). mas as plataformas sim (tanto graffitti) emanavam uma temporalidade estranha com as colunas de ferro ali sustentando a rua, essa mesma rua por onde andamos agora distraidos ou apressados sem olhar pra baixo. mais adiante outro túnel, com uma data talhada na entrada : 1889. e você me pergunta : por onde anda? continuei voltando seguindo o pequeno boulevard construido sobre o túnel, pensando em botar pilhas na minha lanterna para explorar aquele subterrâneo abandonado. mas virei à direita para voltar pelo cemitério de montmartre, evitando o mesmo boulevard ornano de sempre (evitando porte de clignancourt, simplon...). hoje está mais frio do que ontem. rue caulaincourt. pigalle. rue notre-dame de lorette. casa.

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