Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Mein digitaldoppelgänger
(
http://grooveshark.com/#/album/Cluster+II/3513874 )

Stop Worrying and Love the Bomb
(Stanley Kubrick)

Faut-il être mort?
(Level 5, Chris Marker)


<<< O PC está para a eletricidade assim como
o LSD para a química >>>



Há tempos diante da luz fria, já não consigo discernir o meu olho da tela, a retina do minério, a vida da morte.

Sim. Eu estava online quando encontrei Marker. Ele também estava on. Do seu lado direito eu vi Krasna, do esquerdo Hayao. O seu rosto era o rosto de Laura olhando para a câmera : Lucas, você está aí? Sentamos sobre os trilhos, tomamos ayahuasca juntos e ele me deu um conselho. Lance todas as suas memórias no computador. Vídeos, fotos, textos, livros, imagens da infância e da adolescência, projeções futuras. Passe o caderno dos sonhos no scanner, os odores também, o cheiro dela, o gosto amargo da boca dela. As línguas que você fala, lance tudo no computador. Ele vai pegar, juntar e mover tudo na velocidade da luz. Ele vai cozinhar as suas memórias num enorme mingau. “Mingau” que na sua língua já não quer mais dizer “sopa de tripas”, mas “sopa de bites”. É a mesma coisa. Um caldo sem organização possível, sem estratos. Daí surgirão parâmetros e a partir de então as coisas voltarão a se agenciar. A vida. Sim. It’s alive.

Eu perguntei então se ele tinha encontrado o que buscava, se a morte tinha deixado de ser absoluta de acordo com o seu culto, se o cinema tinha nos libertado. Ele disse que não somos mais os mesmos depois da ressurreição à base de eletrochoques. Preste atenção nesta Gorgó – e apontou para a luz fria –, a morte está mais viva do que nunca, ele disse. Hayao sorriu o sorriso branco do gato da sorte. Krasna levantou as suas asas de coruja. Laura foi embora pelo túnel da Petite Ceinture que passa embaixo do Père Lachaise.

Acordei quando amanhecia. A janela tremia com a chuva e o vento. As nuvens pareciam um mar ao revés. As ondas liberadas pelo sonho estavam sendo captadas pelo eletroencefalograma. Durante intervalos irregulares as linhas pareciam delinear a forma de um rosto. Tomei um café, acendi um cigarro e comecei a fazer exatamente o que ele tinha me dito. Lancei os dados no programa. Todas as minhas memórias, todos os meus desejos, todas as minhas projeções futuras. Enquanto trabalhava não podia esquecer o rosto de Laura olhando para a câmera.

Entrei no metrô, caminhei pela cidade. Tudo estava sendo captado. Assisti televisão durante 16 horas seguidas, simulando uma meditação para que as ondas α fossem interceptadas e algo por detrás se revelasse. O programa calculou durante horas até que encontrou uma variação paramétrica, uma espécie de matéria-fluxo que era a minha própria essência vaga, uma quantidade determinada de Lucas possíveis. Sim. O meu nome já continha esse plural. Dizer que vivemos numa selfculture é dizer que vivemos na cultura dos outros. Eu sou um outro. O inferno são os outros. Cada ser é um coletivo de seres. Uma compilação movente, uma heterotopia (todas as classificações a classificação). Até que...

A minha conta, a minha vida, a minha relação com os outros, os meus reflexos, tudo parece estar sendo customizado. Eu mesmo sou uma customização de massa. A história de uma vida não cessa de ser reconfigurada (digamos deformada) por todas as histórias verídicas e fictícias que alguém conta sobre si mesmo. A minha história está emaranhada às de todos vocês. Me lembro daquela voz que cuando digo usted, usted no existe para mí, y sin embargo, vaya si existe, porque somos este encuentro desde tiempos y espacios distintos, una anulación de estos tiempos y estos espacios, y eso es siempre la palabra y la poesía – um curto circuito. Aberto / fechado / aberto. Um sinal. Uma vibração.

A partir de então o computador começou a expandir a minha personalidade, baixando músicas e textos, fotos e filmes de acordo com os meus hábitos por ele captados. Ele me desdobrou e desdobrou. As minhas senhas foram inseridas no programa. O meu blog, a minha conta de banco, o meu e-mail, o meu telefone, o meu skype (o último refúgio da aura). A partir daquele dia em que decidi me inserir no programa, deixei de existir e fui substituído por um outro. Um autômata, uma espécie de demônio de cobalto. Um djin.

Primeiro, da soma de todos os dados surgiu um esqueleto de imagens fixas, um cadáver, cinzas. Mas ao accionar o programa generativo o cadaver se animou. Ele estava vivo. Eu estava diante do meu doppelgänger computadorizado, sinal da minha morte iminente. Um CsO. Um verdadeiro Frankenstein modelado através da massa descaracterizada de todos os meus desejos e todas as minhas lembranças. Como se eu fosse uma Invenção de Morel inserida num programa generativo. Qual a diferençao entre uma vida e uma memória que se recompõe permanentemente através de deformações topológicas?

A mecânica dos flúidos e seus turbilhões arruinaram a retórica, a geometria, a memória de longa duração. A arte da memória estava baseada numa arquitetura sedentária de lugares fixos, através dos quais distribuíamos imagens-lembranças. Ao percorrer essa forma geométrica éramos capazes de lembrar da nossa vida como se tratasse de um palácio construído pela retórica. Agora, quando o castelo desmoronou, os lugares começaram a ganhar vida. A memória parece ter se deslocado, tornado-se matéria-fluxo. Num processo de inverção dos valores, a longa duração passou a estar subordinada à curta duração. A bomba desestabilizou tudo. É como se no palácio da memória tivessemos encontrado a chave de um quarto sempre trancado. Do lado de dentro os móveis empilhados apodreciam. Teias de aranha e poeira escondiam um enorme espelho. Até que sopramos e passamos para o outro lado.

Agora, o que somos nós se não, justamente, uma memória viva em permanente variação? Coloco no computer toda a memória de longa duração da minha curta vida. Ele gera parâmetros e desenha as sinapses, as micro-fendas que darão liberdade ao doppelgänger. O programa lança as imagens fixas do palácio nos fluxos viscosos do rio Lethe. O rio digital. Um rio gosmento que passa pelo subterrâneo da cidade. O rio do esquecimento entre as catacumbas e o palácio da memória.

O computador é ele mesmo uma contradição, a de querer ter memória e ao mesmo tempo submetê-la a uma possível desaparição. Mas é daí que surge uma arte da memória que escapa à consciência, que é trabalhada pela matéria mesmo do tempo, se ordenando expontâneamente em hélice. Uma arte da memória frágil, tênue, não pirâmide, mas fios da virgem, babas do diabo. Uma mnemotécnica anti-clássica.

Eu vi então que por dentro todos somos screensavers de onde emanam imagens da nossa infância. Entre o ícone e o abstrato, entre a inflação e a valorização da imagem. Chamas artificiais. Variações barrocas emitidas por cordas vocais girando ao redor de uma mesma partitura. Um corpo amorfo traçando caminhos. Distribuindo. Um agregado de imagens-texto saindo da matéria eletrônica. Um misto de fabulação e experiência viva. Um parâmetro móvel, ele mesmo variação. Um gênero cambaleante para várias espécies de Lucas. Formas mutantes para matérias-fluxo.

Diante dessa imagem adormeci. No dia seguinte acordei esquecido de tudo e me deparei com uma paisagem digital. Nenhuma superfície era neutra, todas eram deformações geológicas onde determinadas forças teriam sido armazenadas. Deformações topológicas que nos indicavam caminhos possíveis. Montanhas formadas por textos e imagens. Blobs. Montanhas que pareciam de metal derretido e que se mexiam de acordo com os meus passos. Um palimpsesto vivo. Aquilo era eu. Uma paisagem formada por catástrofes de há cem mil anos. Uma Zona, não um individuo. Um mar de silício de viscosidade variável.

Caminhando senti um enorme prazer que beirava a loucura. E pensava que agora a vida é ela também a vitória do inorgânico sobre o orgânico. Eu sou um lugar e um lugar a gente freqüenta, a gente vibra para torna-lo espaço. Espaço é aquilo que surge quando se atravessa um lugar. Sim. Eu sou uma Zapping Zone. Um cabinet de curiosité feito paisagem mutante. Um terreno baldio do palácio da memória. Uma essência vaga onde crescem vegetações parasitas. Quem por aqui entrar não pode voltar pelo mesmo caminho. Ainda que sintamos o fio de Ariadne estremecendo no bolso.

Eu sou a Zona que se alimenta das lembranças dos homens e das ruínas dos seus hábitos. Como uma Hidra de Lerna, uma constelação formada por estrelas tão fracas que parece uma nebulosa. Um ser de várias cabeças que se regenera permanentemente diante dos golpes da cidade. Uma serpente cancerígena. Um outro. Um doppelgänger que caminha através do plano astral. Ele mesmo é necrópole, galeria de máscaras. Ele que desce à tumba e a tumba que surge com a sua descida. O esquecimento erigido em labirinto. Voilà un trou. Voilà un autre trou.

E caminhando sou um stalker que avança furtivamente distribuindo armadilhas, perseguindo e acossando, um arpenteur em busca da câmara dos desejos, impossível centro do labirinto sem muros.

O psicagogo estava certo. São Lázaro das catacumbas digitais. Vivemos em softwares, galerias subterrâneas de uma grande mina abandonada. Tive dúvida se agora não estaria para sempre dentro daquele sonho, daquele túnel, se teria ou não voltado. Há muito tempo quis descer às catacumbas dessa cidade sem perceber que já me encontro nos seus corredores. Meditando imagino a superfície. Qual superfície? Ela permanece uma questão em aberto. Não sabemos se é o nível do mar, das ruas, a cobertura dos prédios, mais acima, muito mais, um mais-além.

Ouço ondas se estrelando na areia da praia e penso. Me apagarão assim que surgir um desastre ainda maior que o meu e que me anule. Um tsunami digital. Um trem de sombras que nos faça voltar de longe. E abrirei a porta de casa, e não haverá ninguém do lado de dentro, e no segundo andar talvez encontrarei um quarto cheio de bromélias.

Quando eu morrer, ou quando o Lucas do skype morrer, as minhas contas se tornarão runas pulsantes, lápides que continuarão vivas no meu lugar (e sobre elas o orvalho digital). Um cemitério de signos caminhando pela cidade. Um texto areia movediça. Sim. Quando eu morrer me tornarei diagrama.

***

Esse texto mesmo já não foi escrito por mim, mas pelo programa. O último, o entre-meio, o primeiro de muitos.