ÉterNauMente
pro Fernando querido
Os cabelos e unhas nunca resolvidos, a tesourinha talhando o infinito, deixando-se levar pelo impulso, o corte, sem pensar muito, o espelho triplo do banheiro.
A mente se recompõe muito rápido, o corpo não. Se você corta a mão de uma pessoa...
Cruzando o Boulevard Ornano, chorando de cabine em cabine, de taxiphone em taxiphone, seguindo a sua peregrinação – olhando pra baixo, déficit do nervo troclear – o ser humano é um bicho que se acostuma com qualquer situação.
O cérebro se regenera como uma lagartixa. Imagina o cérebro deixando um rabo no caminho, mecanismo de defesa pra atrair o predador.
Anos 20. Me hipnotizo olhando pelo buraco da fechadura. Ela brilha. Do outro lado sentada na cama, um manto, seus seios, o cabelo curto e encaracolado, as mãos segurando o frasco perto do nariz. Do éter tudo colhe tons foscos – verdes, amarelos, marrons.
Al-di-là um chão de signos sobre dançando ela – pés em cavidades – surgem eco, fumaça, pensamento Iansã e
Mais uma vez na floresta de mesas e cadeiras. O verde claro brilhante da serpente. Um susto. A cobra que está e de-repente-não.
Aparece entre as árvores um bar chamado Buraco Negro. Fechado. Todos os punks se foram. From Alien Sex Fiend to Franz Schubert and back again.
A fechadura bordada em metal - cabelo encaracolado é o nome dela. Do orifício emana uma luz de-repente-acesa, de-repente-fechadura. O cheiro doce e amargo. Ela aspira ainda mais forte o frasco – o frescor.
Ser gay na Galícia é duro, por isso todos se foram pra Argentina. Esperando na estação ele tira a maçã da mochila e morde. O motorista olha e ri : “hombre, que comes manzana! Debrías llevarte perico!”. Voltando pra casa dos pais depois de anos fora. Anos de heroína em Roma e autostop a Paris, de movida madrileña e miragem catalã. Perico é um pássaro, um periquito, é um apelido, um povoado em Jujuy, uma cidade fantasma no Texas. Perico é um prato tradicional na Colômbia e na Venezuela. Perico significa Pedro, perico na Galícia significa cocaína.
Ela acreditava no eternamente. Sem memória, inteligência, previdência. Sem discernimento, separação, prudência. Ele não acreditava no eternamente. Via o presente, o passado, o futuro – e entrou pelo cano.
Buraco Negro. Tem gente que vive com medo de olvidar. Tem gente que não. O ser humano se acostuma com qualquer situação. O céu aberto e nublado. O mesmo céu. A senhora fecha o cadeado e vai embora mancando.
Sempre olhe pra cima, minha filha. Você anda tão desalinhada... Você tem que se assear : o hábito não faz o monge, mas recomenda.
Até que um dia vejo que devemos respirar pela barriga pra que o ar atravesse todo o pulmão, e que a coluna se quebra quando olhando demais pra cima, e que devemos estirar o pescoço como se tudo puxasse pro alto fazendo de conta que estamos dependurados numa forca, segurados pelo alto e puxados pra baixo, olhando pra baixo, o nervo patético é
Flamengo, anos 20. De repente vejo a mim mesmo do outro lado da fechadura.
– Sinto tanto frio e tanto calor.
– Então tira a roupa.
Ela chupa, morde e cospe a cabeça do pau dele. Espécie de São Denis Fuzz Face Jimi, a mucosa continua pulsando enquanto ele sai mudo, acéfalo, cortando a noite calma do bordel. A garrafa vazia de éter no chão.
Can hear bells ringing, must be Sunday.
Can see the sun, must be Sunday.
Can hear cars, must be Monday.
Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
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3 coisa(s):
pour moi? ixe, que chique!
nice...
querido lux, suas palvras roubadas me desconcertam mas neste momento fico imensamente grata pois de alguma forma me confortaram.
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