Sento agora todos os dias neste bar e escrevo. Estrela de São Roque. Parece que o Herberto Helder vinha sempre aqui. Aqui e no restaurante galego do outro lado da rua. O dono é um senhor simpático e de vez em quando mal humorado. Como deveria de ser, como são os bons senhores, como serei eu. Entram estrangeiros. Entram crianças para comprar sorvetes. Nunca ninguém fica. A televisão nem sempre acesa. O bar escuro. A luz que entra pela porta. Uma luz pálida sobre o interior do bar verde. As garrafas empoeiradas, distantes umas das outras. O pé direito alto. Os ponteiros do relógio seguindo um sentido sinistrógiro. E o senhor que não diz, mas sabe que é o sentido certo : menos um, menos um... De repente dois rapazes entram enquanto ele fuma do lado de fora. Um deles me aponta um revolver e pede o meu computador. O outro observa com calma. Eu digo que não, que aqui tenho toda a minha vida, que atire. Ele dá de ombros e atira. É realmente uma câmera lenta. A bala perfura primeiro a tela de cristal líquido e depois o peito. Primeiro o desktop e depois o pulmão. O sangue do computador é amarelo e azul brilhante. O meu é de um vermelho escuro e espesso. Sorrio e morro abraçado com o computer. Silêncio. Eles vão embora correndo.
(...)
Ó minha Lilith, minha querida e virgem Lilith, meu querer! Maçã numérica, cifra secular, perdição lunar! Quantas noites brancas aquecendo minhas pernas, meus lençóis! Ó meu tigre digital! Minha caverna! Meu labirinto murmurante! Meu aleph! Adeus baby blue!... Adeus!... O senhor volta do cigarro e acende a luz fria. Anoitece.

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