de dentes e jujubeiras.
Na Galícia acordei de um sonho em que os meus dentes se separavam e separavam e as gengivas apareciam e me via no espelho e era horrível. O espelho e essa boca-entranha aberta me lembram agora a história e imagem da Gorgó - seus olhos abertos e esbugalhados, os dentes enormes saindo da boca escancarada, imagem congelada e refletida - essa morte especular que espreita, eu mesmo feito outro, objeto d'objeto. <<< E o siso que está ainda nascendo (já não sei quantos). O corpo em permanente metabolismo. Os cabelos que continuam crescendo depois de mortos. O corpo que é também mineral. Carrega a morte dentro de si. >>> A morte é a vitória do mineral sobre o orgânico, o dente fica, ficará, por milênios - o osso é o eterno dentro do efêmero, o osso é queimado e oferecido aos deuses, enquanto nós, mortais, comemos a carne do animal morto, e por isso somos nós efêmeros e os deuses eternos - o deus é um bicho que se alimenta de ossos tornados fumaça.
Quando acordei achei que era verdade, que era feio, horroroso, a boca se fecha, o pudor da boca fechada, abrir a boca é se mostrar, mostrar os dentes, abrir a boca é se dar ao outro.
Quando adolescente usava aparelho, e depois que parei de usar os dentes se moveram, mudaram um pouco de lugar, e no sonho tinha esse medo, de que eles se separavam e mudavam de posição porque eu teria parado de usar aparelho sem devê-lo. Quando tinha uns 20 anos arranquei o aparelho da boca com um alicate. E o aparelho agora, sempre, de alguma forma os dentes me remetem ao cavalo. Talvez devido às embocaduras que usamos no animal, como freios e bridões. Talvez porque, de olho na boca do cavalo, calculamos a sua idade analisando os seus dentes. Talvez porque dominação, porque nobreza do animal subjugado. Dei de comer a cavalos nesse dia de domingo na Galícia - eles estavam bastante selvagens e famintos. Descobri então que o cavalo de raça lusitana é mais feroz e difícil de domar. O pai do David soltando um e eu abrindo os olhos, a impressão que deixou aquele bicho.
E me lembrei dos Espartos. Édipo (que significa aquele de pés inchados, que peca, pecado significa tropeçar, pecar vem de pé), Édipo é descendente dos Espartos (os Semeados), família ctônica que surgiu dos dentes semeados de um dragão. >>> Dentes-semente, o dragão é símbolo da fertilidade feminina, se encontra em grutas e florestas. Um dragão que foi morto (um dragão assassinado) por Cadmo, um dragão que defendia uma fonte numa floresta, uma nascente, uma mãe d'água, dragão-mãe-d'água.
Gruta - grota - grotesco - boca e cú, entranha. A boca aberta da Gorgó, paralisada, os dentes da morte. Escatologia que vem de escatos = último, uma rama da teologia que trata do final do mundo. Boca. Gengiva. Dentes como sementes enterrados na gengiva. O cú como boca. O proctologista como um "dentista do cú".
* * *
Os dentes são muitos. São toda uma civilização. Os dentes-pessoas. Que rangem e brigam entre si. Que geram ruído. Associados aos olhos. São mil olhos. Que nos observam. Onde há uma luz há um olho que nos observa.
Os teus dentes caindo era pura insegurança. Medo mesmo.
Te filmei. Filmei os cavalos selvagens. Filmei o bingo em Madrid. Faltam agora os dentes. E esses nossos óculos que se entre-olham. Entre-chocam. Desconfiados. Como chifres. Os teus com reflexos verdes. Os meus arranhados. Dispersando a luz.
Como se a casa fosse uma imensa gengiva. E nós o dente. E de vez em quando cresce. E de vez em quando aperta. E de vez em quando a dor de dente.
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Recorte do Dicionário dos Símbolos (Jean Chevalier, Alain Gheerbrant) :
Perder os dentes é ser despossuído de força agressiva, de juventude, de defesa : é um símbolo de frustração, de castração, de falência. É a perda da energia vital, ao passo que a mandíbula sadia e bem constituída atesta a força viril e confiante em si mesma.
A tradição védica parece atribuir um sentido semelhante aos dentes, e em especial aos caninos, cuja força agressiva deve ser domada. São eles :
Dois tigres que avançam para baixo,
Procurando devorar o pai e a mãe,
Ó Agni, tornai-os propícios !
Sede pacíficos e de bom augúrio !
Aquilo que, da vossa substância, é temível
Ó dentes,
Que se vá para outro lado.
A poesia galante persa, tal como a européia, compara os dentes com as pérolas ou com as estrelas fixas ; muitas vezes, também com o granizo : Um orvalho caiu dos narcisos (teus olhos) como a chuva, e regou as rosas (tua face) ; tranformado neste granizo que alegra a alma (os teus dentes), crivou as jujubeiras (os teus lábios).
Finalmente o dente é um instrumento de tomada de posse, que tende para a assimilação : a mó que esmaga para fornecer um alimento ao desejo.

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