Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

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Me lembro uma vez criança em Anisacate :

- O que é isso? 1966?

- É o primeiro calendário da casa.

- E isso?

- Um prego usado na construção do túnel subfluvial de Santa Fé.

- E porque vocês construíram o túnel de Santa Fé? Porque não fizeram uma ponte? Porque guardam um calendário tão velho?

- O calendário é uma lembrança. O túnel é porque os militares argentinos tinham medo de uma invasão brasileira depois do golpe de 64.

- Mas...

E eu fui tomar banho de rio com Joaquín e sua irmã.

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Sábado, 6 de Novembro de 2010

[O sol quer dizer a lua]


Hoje sonhei que dois urubús queriam me comer. Eles tinham olhos grandes. Eram do meu tamanho. Quase humanos. Eu estava num canal em meio a um capinsal. Sempre sonho com canais. É como se fosse em Niterói. Como se Niterói fosse uma mistura de viadutos, canais e capinsais. Mas dessa vez havia um túnel. Era como se estivesse em Saint-Denis Porte de Paris. Niterói e Saint-Denis. UFF e Paris 8. O fato era que os urubús queriam me comer. Tinham penas brancas no colo. Eram como os urubús que aparecem no Donkey Kong (esses americanos colonizaram o nosso inconsciente).

Imagino essas imagens com a música do Pierrot le Fou. O silêncio da música do Pierrot le Fou. A presença da névoa sobre a cidade. Sobre a mata e sobre as antenas da floresta da tijuca.

O sol não está. Desde que cheguei faz mal tempo. E ainda assim é como se pudesse senti-lo sobre as nuvens. Como ausência. Como busca. E ironia : passo de ônibus e vejo num flash um prédio chamado Dimanche Matin (com a palavra soleil escrita em algum lugar). Isso na Lagoa, onde antes havia a Favela da Catacumba - hoje um bairro fictício, um anel de edifícios burgueses em torno de uma água suja que nos serve de espelho.

“A verdadeira ida é a volta”. A primeira coisa que vi no Rio de Janeiro foi o HU sendo cortado em dois. Aquela paisagem da linha vermelha. O avesso da Zona Sul - o horizonte como capital simbólico. Já tive muitas discussões com meu pai a respeito disso. E a base para mim está no que diz o Antonioni : eu estava numa estrada em direção a Ferrara, quando via do lado direito um bosque secular, e do lado esquerdo uma paisagem cinza de pântanos e fábricas. Daí me perguntei o que achava mais belo. E percebi que era o lado esquerdo. Porque era mais humano.

E a fala do Pedro Costa. Dizendo que se sentia incapaz de filmar uma paisagem. Que não conseguia entender como alguém era capaz de pôr uma câmera na frente do mar e começa a filmar. De que prefere filmar muros.

Me lembro do Bolaño dizendo que é impossível sentir saudade de um pais subdesenvolvido. De que é uma hipocrisia.

Penso na Romênia que também possui a palavra saudade e a palavra eu. E não entendo. A Romênia quase não tem mar. Como teria saudade?

(Os muros da Praia da Saudade. Lima Barreto desde o hospício olhando a paisagem no dia de São Sebastião. 1920?)

O Rio de Janeiro é uma cidade aterrada e, por isso, fantasmática. O mangue já é por si só uma névoa. Depois de aterrado continua a deixar suas marcas - a sensação de algo podre, em decomposição, de caranguejos que podem beliscar os nossos pés. A Lapa, a Gamboa, o Jardim Botânico, a Lagoa, o Leblon. Era (e é) tudo mangue.

É só pôr os pés nesta cidade verde e cinza e
parece que me refaço barroco. Marrom. O barroco é a soma de todas as cores que se faz marrom e não branco. O barroco que vem de barro. De pérola imperfeita encontrada no barro.

Acontece que "o subdesenvolvimento é um estado de alma". E me lembro daquele filme cubano. Aquela menina de 16 anos. Morena. De joelhos maravilhosos. Caminhando perdida. Incapaz de qualquer concentração. O próprio caminho tortuoso. Aquela pérola. Aquele sub, aquele pré.

Fazia tanto tempo que não via televisão. MTV brasileira. Propaganda eleitoral. - Simpsons - Sílvio Santos - Malhação - Rede pentecostal - e eis que colocaram televisões nos ônibus do Rio. Vejo numa delas um pastor de 30 anos que compõe funks evangélicos. Olho ao meu lado e conto três pessoas dormindo. Todo um silêncio possível no meio de tanto tremor. Me lembro do quadro do Goya. O sono da razão cria monstros. A palavra “cauchemar”, que vem da soma das palavras “fantasma” e da palavra “aperto”. A palavra “nightmare”, que nos leva a imaginar um cavalo solto pela noite, pela névoa do lado de fora de casa. A palavra sonho... a palavra dream... a palavra rêve... são tão diferentes as raízes das palavras... Sempre alguém dormindo. Sem ver o que se passa do lado de fora.

***

I don't do anything, but I'm not on vacation. When on vacation you do things, you arrange your free time. I don't. I don't do anything. I go for walks a lot, and think. Maybe I think to much.

Tudo o que mudou no Rio. Tudo o que não mudou no rio...

É como se te guiasse pela cidade. Não falo nada. Apenas aponto algumas coisas. E escolho por onde vamos.

Parece significativo que o teu nome signifique lua cheia (é celta, você disse), enquanto a luz do meu nome é solar (é latino). Porque eu sou "sol elétrico" pros maias. Mas aqui não há sol (por onde é que anda a lucidez da manhã?).

“O sol não pode viver...” / “O sol... há de brilhar mais uma vez..."

E me voltam as imagens dos urubús pousando. Uma vez o meu pai estava decolando quando entrou um urubú na turbina do avião. É perigoso isso aqui. Outro dia vi um vídeo engraçado. Era alguém pousando e falando : Sai, urubú! Sai, urubú!

Vão demolir o HU. Aquele edifício-carniça. Construído sobre o que antes era o lixão da cidade. Vão demolir o HU. A perna seca. Os urubús girando em volta. (O pai do Matta-Clark que disse que os corpos estão mal feitos. Que é preciso reconstruir os corpos.)

Somo recortes de jornais :

A Dilma e o Serra na televisão. As marcas deixadas pelas chuvas de Abril. O fogo na obra do Hélio.

Escuto a música do Pierrot le Fou. As pausas. Sempre pensei nesses intervalos preenchidos pela montagem de imagens desencontradas.

Sonhei contigo ontem. De repente (numa sequência de sonhos, de pessoas sonhadas) a gente estava em Moscou. Era uma cidade hipermoderna. Com edifícios de vidro espelhado. Era de noite. Tinha um rio enorme. E uma estátua do Lênin dentro de um estacionamento. A gente sentou debaixo da estátua, você pegou a minha mão para ler e se assustou porque em duas linhas (que depois vi ser a linha da cabeça e a linha do coração) havia um vazio. Era como se as linhas se interrompessem para depois continuar. E eu senti (e não sei se você disse nada, acho que não, acho que a gente não falou nada no sonho), eu senti que aquele vazio era o que me dividia do mundo externo e das pessoas. O que me des-comunicava. Daí você aproveitou o vazio das linhas e desenhou um rosto de um palhaço na minha mão. O que me soou como uma abertura. Uma liberdade. É isso.

E eu te conto isso. E você diz que “ailleurs” em berbere quer dizer lua.

E no dia seguinte, na véspera da minha viagem, eu recebo uma carta sua. Um telegrama. Você me diz que não quer me ver, que ao chegar em Paris não te busque. Que é melhor assim. E o pior: você termina a sua mensagem com o costumeiro “ciao bello”. E eu tenho ganas de rasgar (como se fosse possível rasgar um e-mail).