Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

Paris – cidade fechada.

Para Fernando Rodrigues e os nossos passos / flashes na floresta.




“Paris es un centro, entendes, un mandala que hay que recorrer sin dialéctica, un laberinto donde las fórmulas pragmáticas no sirven más que para perderse. Entonces un cogito que sea como respirar Paris, entrar en él dejándolo entrar, neuma y no logos.” (Rayuela, capítulo 93. Julio Cortázar. 1963).


Mircea Eliade descreve as visões arcaicas e tradicionais do espaço características por delimitar uma oposição entre o espaço sagrado e o espaço profano, assim como entre cosmos e caos, entre conhecido e desconhecido. Nestas crenças existia a idéia de que o mundo possuía um centro, um lugar sagrado por excelência, um imago mundi. Seja um país inteiro, uma cidade, um templo ou uma casa, seja uma montanha, uma árvore, uma estrela, o centro se caracteriza por uma ruptura com o espaço homogêneo, pela abertura que cria uma passagem entre os três níveis (terra, subterrâneo e céu), pelo eixo em torno do qual o mundo se organiza hierarquicamente, e pela conexão com um outro tempo, anterior, o tempo das criações. São espaços fechados – por muros, precipícios, símbolos assustadores, etc. –, possuindo fronteiras e entradas delimitadas, de forma que a descrição de um centro começa com a descrição de seu entorno, da natureza a seu redor, assim como de seus muros, do que vemos do lado de fora.
Neste sentido, o microcosmo – imago mundi, simbolismo do centro – é uma forma de heterotopia (segundo Foucault, a realização de uma utopia: a de diversos espaços e tempos incompatíveis convivendo e justapondo-se num mesmo lugar), possuindo relações estreitas com um determinado tipo de tempo. Ernst Cassirer fala de que o espaço finito nos leva a um tempo finito. Um circuito fechado caracteriza-se pelo número delimitado de possibilidades de acontecimentos. Se a energia é uma constante, isso significa que há uma quantidade delimitada para suas variações. De forma que haveria uma repetição, uma volta, um tempo cíclico - ou plano. Diz Cassirer que a manifestação principal de um tempo finito está na astrologia. No tempo das correspondências passado e presente (Céu e Terra) se conectam através de analogias que percorrem caminhos, traçando ou traçados por constelações. "O que está no alto é o que está embaixo". O que está no passado é o que está no futuro. O espaço-tempo finito é contrário à idéia de progresso. Pois é apenas com Galileu que o universo definido como infinito dará vazão a uma idéia de tempo histórico e mensurável científicamente. Trata-se do que Eliade chama de tempo primitivo (platônico, arquetípico) e tempo arcaico (cíclico) em oposição ao tempo histórico e linear.
Paris é uma cidade fechada que existe de acordo com uma lógica copernicana do espaço : espaço centralizado por um eixo (Notre-Dame, Concorde, Chatelêt), finito e hierárquico (do centro à periferia). Até hoje há muros que envolvem a cidade, que são as autopistas da peripherique. Há toda uma falta e uma busca por um horizonte em Paris, uma sobre-valorização do espaço na cidade – que é ela inteira centro. Por outro lado esta ruptura com o exterior de Paris nos leva a uma abertura que faz de Paris imago mundi : cidade cosmopolita, cidade da luz, farol do mundo, onde prevalece a simultaneidade - heteretopia gigante.
Ao ver a cidade desde cima podemos criar diversas associações ( http://www.urbanmobs.fr/fr/france/ ). A primeira que me surge é a das constelações. Etoile, Nation, Concorde, Opera, Place d’Italie, Bastille, seriam centros, pontos giratórios de onde surgem linhas que se conectam através de outros centros. Constelações entre espaços que nos levam a constelações entre tempos (uma cidade de tempos justapostos e conectados por linhas). O tempo das constelações é o tempo das correspondências, que opera através de semelhanças e analogias. Ao caminhar pela cidade, por essa imensa constelação, passamos por vezes do efêmero ao eterno, pois se abrem istmos espaço-temporais, frestas por onde passamos a uma anterioridade. E gostaria de propor apenas um exemplo à beira do fantástico : os elefantes que vemos na cidade, seja na tela de um bar, seja na Notre-Dame. E ao pensarmos que há milênios, em Belleville, existiam mamutes, que desciam pelo que hoje é a rue Saint-Denis para beber água no Sena – rua esta que tempos depois foi utilizada pelos reis como via que ligava a Basílica de Saint-Denis à Notre-Dame, rumo à coroação.



O tempo das constelações possui, portanto, uma forte relação com o hipertexto. Ao invés de realizarmos todo um caminho de uma situação à outra, passamos diretamente, por semelhança. A cidade como banco de dados, como hipertexto, como imagem do pensamento. O mapa de Paris é como o mapa de um cérebro, é uma cidade-cérebro.

E se o espaço fechado nos leva às constelações, o espaço aberto da subúrbia seria o espaço da nebulosa (onde prevalece o inconsciente), do desconhecido (com relação ao centro, que é o déjà-vu), da floresta, das águas do caos pré-formal, do deserto. As cidades-deserto, as cidades genéricas com a aridez de suas autopistas, sem história nem identidade, se assemelham, assim, ao labirinto dos árabes, sem centro nem saída, enquando Paris, a cidade tradicional por excelência, seria o labirinto da Babilônia, funcional, com centro e saída, forjado, construído, com pedra (o mais eterno), mas também com vidro e ferro (nas gares e galerias – lugares de passagem).
Entre as duas formas de espaço surgem interstícios. Entre o aberto e o fechedo, o eterno e o efêmero, temos as portas das cidades. Porte de Clignancourt, Porte de la Chapelle, Porte de Vanves, Porte de Montreuil, lugares onde se dão os mercados de pulgas, a troca entre o centro e a periferia, o consumo da memória e do disperdício. É lá também onde encontramos a entrada para as catacumbas (chamam essas entradas de chatiere, que significa aquelas pequenas entradas para gatos nas portas das casas, sendo que chat pode significar também vagina). São lugares-entre, que conectam os níveis. São outras formas de centro, onde predomina Hermes e a comunicação entre o lugar e o não-lugar. Lugares propícios para a deriva, onde surge o inusitado, o contato com uma alteridade. Onde há mais terrenos baldios, onde por vezes podemos ver a linha do horizonte.
Estrela, etoile, que nos leva a toile, que é teia. Paris como uma teia-de-aranha : a teia da ilusão, o véu de Maia. Os hindus enxergam o mundo como uma teia ilusória através da qual podemos atingir uma iluminação – a descoberta de algo por detrás. Neste sentido a presença da aranha se faz como ausência. E para encontra-la necessitamos percorres os fios da virgem (ou babas do diabo), pequenas ruas entrelaçadas que podem levar-nos (com o vento) a outro plano. Paris é uma cidade dada aos encontros (entre tempos, espaços, níveis, pessoas), de onde surge uma cartografia de acasos, de saltos no tempo (como sentimos nos romances Nadja e Rayuela).
(Os mapas de Paris : uma beleza de situação e não de contemplação. Ao olhar o mapa do metrô podemos pensar nos quadros de Mondrian, mas somos também transportados a toda uma lógica dos encontros, das passagens e correspondências, do deslocamento. As catacumbas com seus ossos, o mais eterno do corpo humano segundo os gregos, e os metrôs com seus fantasmas, mortos-vivos no mundo da tele-vigilância onde todo sujeito é objeto, e onde as câmeras, objetos, são sujeitos.)

plano das catacumbas ao sul da cidade

O caracol. A cidade se organiza em arrondissements (que significa “dar a volta”). Do centro (Notre-Dame) à periferia, os bairros se localizam um a um numa espécie de grande caracol – que em francês é boucle, palavra que designa ao mesmo tempo “caracol” (antigo símbolo da fertilidade e do infinito) e “loop”. O boucle se caracteriza por um ponto de partida e por uma repetição, onde é necessário, segundo a lei da recursividade (indução), determinar seu início para poder diferenciar o verdadeiro do falso. Paris é, neste sentido, como na última seqüência da Dama de Shanghai, um jogo de espelhos (Borges diz que dois espelhos são o suficiente para produzir um labirinto), uma repetição incessante de sua própria imagem, uma falácia onde já não sabemos o que é Paris e o que é a imagem de Paris, onde já não podemos determinar o ponto de partida (tente busca-lo em Chatelet). Paris é super-Paris, é uma caricatura de si mesma, é uma máscara por detrás de uma vitrine. É um caracol que gira para dentro e para fora ao mesmo tempo. Paris é uma farsa, é a própria tragédia que se repete como farsa. É um projeto de embelezamento que esconde por detrás de si objetivos políticos e militares de controle e higienização (Haussmann).
Tais analogias se realizam também no nível da metonímia, tomando as partes pelo todo, onde o macro e o micro se confundem. Cada fragmento de Paris nos remete a Paris em sua totalidade. Na cidade tradicional, ao olhar uma rua nunca conseguimos separar um objeto de uma visão total.
Tal repetição, tal imagem, agrega valor às mercadorias vendidas na cidade. Ao fumarmos um cigarro aqui não fumamos um cigarro: fumamos um cigarro em Paris. Ao comprar uma roupa usada, não compramos simplesmente uma roupa, mas uma roupa encontrada em Paris. A cidade é neste sentido um grande valor de mercadoria tornado espetáculo.
Mas como disse, trata-se de uma realidade forjada, construída pelo estado e pela lógica turística. E vemos quadras formarem triângulos em todas as partes do mapa da cidade. O triângulo que é símbolo do poder e do dinheiro nessa espécie de cidade-estado (pensemos nas pirâmides de vidro nos jardins do Louvre).
Totalidades possíveis numa cidade que se quer e se faz imago mundi (simultaneidade decadente ao ser paulatinamente substituída pelo hipertextual - o ciberespaço como cidade global). Paris é a cidade da concentração, onde a energia é canalizada mais facilmente, como diz Henry Miller, em oposição a Nova York (e eu diria, à toda cidade moderna, americana, que é centro e periferia ao mesmo tempo), onde a energia se esvai, se desperdiça no trânsito.
Por fim, Paris é uma cidade-mandala que nos leva, muitas vezes, a um reencantamento do mundo, seja através do fetiche da mercadoria, do desperdício colecionador, da deriva ou do tarot (cidade onde nasceu o espiritismo de Alain Kardec, onde até hoje podemos ir ao café onde Jodorowky joga suas cartas), onde não por acaso se formaram tantos ‘patafísicos e ensaístas. Uma imagem que se assemelha a alguns quadros pós-impressionistas, onde simultaneamente cada objeto colorido paralelo e justaposto se move produzindo uma estado hipnótico. Cidade de autômatos e sonâmbulos. Cidade do deslumbramento (como expressa esse texto que realiza uma forma de culto).
Mas como diz Michel De Certeau : “À quelle érotique du savoir se rattache l’extase de lire un pareil cosmos ? D’en jouir violemment, je me demande où s’origine le plaisir de “ voir ensemble “, de surplomber, de totaliser le plus démesuré des textes humains.” (L'invention du quotidien. Vol 1. Arts de faires. 1980)


1 coisa(s):

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