(lugares e objetos entre)
Para Ícaro Lira e Francine Jallageas, companheiros de Praça XV.
Tudo começa e tudo termina na feira. Gilgamesh, após buscar sem lograr encontrar a imortalidade, volta a Uruk em dia de feira, chegando de suas aventuras direto ao lugar do efêmero. No candomblé a primeira etapa pela qual passa um neófito em seu rito iniciático, é a de escolher os objetos do ebó (sacrifício) na feira. Podemos dizer que a cidade e a rua começam mesmo pela necessidade de troca entre dois viajantes que, vindos de lugares diferentes por caminhos diversos, se cruzam num determinado momento. Neste ponto de encontro surge a rua, a cidade e a praça com o mercado. Em torno deste mercado constroem-se casas onde se desenrolarão crônicas cotidianas que alimentarão a feira de antiguidades - esta localizada numa das estremidades da cidade. De forma que cada um de nossos objetos pessoais, sem valor de troca nem função, estarão algum dia sendo vendidos nesta mesma feira de quinquilharias, grande encruzilhada onde prevalece a troca e a comunicação.
Walter Benjamin fala da feira como lugar da fala. Michel De Certeau considera os feirantes como verdadeiros arquivos da cidade, como memória da rua. Os fisiólogos da cidade, que no século XIX buscavam tipos sociais nas ruas das capitais tradicionais, viam na feira o encontro entre todas as camadas e regiões do homem urbano moderno. Por outro lado, para além da crônica, da feira como palco onde se encena o drama cotidiano, para além de uma antropologia realista que busca rostos, marcas do tempo nas pessoas, podemos apontar em direção à feira como lugar de passagem, como espaço-limite, como fronteira entre mundos contíguos (espaço intersticial análogo à particularidade do objeto vendido nesta mesma feira de antiguidades). Ao invés de pensar a feira de antiguidades de acordo com a história dos costumes, gostaria de pensa-la como heterotopia.
Espaço microcósmico onde prevalece a simultaneidade, onde todos os tempos e lugares se condensam numa justaposição, a heterotopia foi proposta como conceito por Michel Foucault num texto chamado Espaços outros, de 1967. Suas seis características são : sua presença em todas as culturas (o jardim babilônico, o tapete persa, o cinema, são todos heterotopias); a alteração de sua função de acordo com o tempo (o que antes podia ser sagrado torna-se profano – como por exemplo o prostíbulo em algumas culturas –, o que antes era fechado torna-se aberto); a justaposição de espaços e tempos incompatíveis num mesmo lugar (a heterotopia é a realização de uma utopia); a presença de uma delimitação temporal que Foucault chama de heterocronia, ou seja, uma ruptura com relação à duração cotidiana, um intervalo, seja ele a partir de um congelamento do tempo a partir da preservação (museu, arquivo), ou de um salto temporal (ao entrar numa igreja, por exemplo); sua abertura e fechamento, a possibilidade ou não de penetrá-la; uma função dialética, de oposição e troca com a sociedade que a engloba.
E por mais que apliquemos estas seis características em nosso objeto de estudo, a feira de antiguidades continuará sendo uma heterotopia muito particular. Se por um lado trata-se de um espaço de memória, onde diversos tempos coabitam um mesmo espaço, por outro, em oposição ao museu, ao arquivo, ao monumento, a feira de antiguidades não é o que os historiadores costumam chamar de “lugar de memória”, pois, prevalecendo a troca em lugar da preservação, o movimento em oposição à vitrine, e não sendo a feira de antiguidades em geral um lugar marcado por um acontecimento histórico específico, percebemos nela, ao contrário, um sistema aberto, onde os objetos estão em vias de consumo, de tornarem-se mais e mais ruínas, predominando aqui a aceleração e não a imobilidade do tempo. A feira de antiguidades é, enfim, uma heterotopia que se queima.
Ao consumir a memória de anônimos temos a sensação de estar permanentemente destruindo-as. Ao ver uma fotografia e tira-la da ordem, ao comprar um objeto sem comprar todos os que vêm com ele, não somos conscientes, muitas vezes, de que realizamos nossa parte nesse caos, pois esse mesmo objeto (comprado ou tirado da ordem) nunca mais voltará a seu “lugar” (seria como se embaralhássemos os livros de uma biblioteca, ou as fotografias de um arquivo - provavelmente nunca encontrarão sua ordem novamente). Por um lado aceleramos a decomposição desta memória mesmo que, por outro, ao comprar algo, inserimos os objetos adquiridos em uma nova ordem, uma nova memória, agora nossa, num processo de ressignificação semelhante ao dos filmes de found footage.
Há portanto a sensação de que nunca vemos um mesmo objeto duas vezes na mesma feira. Entrópica, caótica, indomesticável, não apreensível, a feira de antiguidades é um espaço de lembranças mas também de olvidos, lugar de passagem, lugar-entre (in-betweenness), interstício entre o centro e a periferia.
A quase totalidade de feiras de antiguidade se encontra em vias de acesso, entre viadutos ou sob eles, ao lado de portos, rios, na saída de cidades, em suas portas, em seus faubourgs, além-muros, na proximidade de um anel viário, etc. Espaço comunicativo onde reina Hermes (Exú), o deus mais jovem e mais velho, ídolo dos comerciantes e dos ladrões, deus da palavra, da comunicação, que une os pontos no espaço, que une os espaços entre si, que abole as fronteiras através do encontro entre o telúrico e o divino, o céu e a terra, o vertical e o horizontal; deus ardiloso, onde o verdadeiro se confunde com o falso através do artifício, deus da negociação, da manha, da lábia. Aqui prevalece a malandragem, pois há de se criar uma espécie de lógica do acaso para poder “encontrar” os objetos queridos na feira, e para compra-los por mais barato ou até mesmo consegui-los de graça. Toda uma lógica popular que nem obedece a ordem dos fatos e nem se revolta.
Lugar afeito à deriva devido a seu aspecto iniciático, através do qual podemos entrar mais facilmente em contato com a alteridade, a feira de antiguidades está entre a constelação e a nebulosa, o caos e o microcosmos, entre o centro e a tábula rasa, pois o excesso de informações pode encaminhar-nos a um grande vazio - assim como as cores ao girarem: dão em branco. Pois a deriva contínua nos leva ao delírio, mas também à planície por sobre as palavras.
Os outdoors, o cinema, as mil propagandas na rua, os objetos vendidos na feira – lemos em movimento. São telas estáticas que deciframos ao passar. Ao contrario do livro que possui páginas que movemos para seguir a leitura, a leitura na cidade (e na feira) depende de nosso movimento. O tempo aqui é necessariamente uma questão de posicionamento no espaço. De forma que, ao caminharmos na feira de antiguidades, passamos, passo a passo, por séculos distintos.
“Costuma escrever-me da África. Comparava o tempo africano com o europeu e também com o tempo asiático. Dizia que, no século XIX, a humanidade tinha chegado a um acordo com o espaço, e que a grande questão do século XX era a coexistência entre diferentes conceitos de tempo.” (Sans Soleil, Chris Marker, 1983).
“Creio que a inquietitude hoje concerne fundamentalmente ao espaço, sem dúvida muito mais que ao tempo; o tempo não aparece provavelmente que como um dos jogos de distribuição possíveis entre os elementos que se distribuem no espaço”. (Des espaces autres, 1967, Michel Foucault).
Parece que a afirmação de Foucault responde à questão de Chris Marker. Trata-se de um tempo estóico, espacializado. Uma espécie de imagem-atração, entre a imagem-movimento e a cena, a planície, o horizonte. Os objetos na feira, seus vendedores, compradores, flâneurs, todos estão no olho do furação, no centro de memórias tornadas objeto, de signos que saltam (nós saltando entre eles) e que algo querem nos dizer.
De forma que, se a feira de antiguidades é um espaço-entre, os objetos da feira de antiguidades são também de condição intersticial. Entre a memória oficial e a memória subjetiva, entre a crônica e a história, entre a lembrança e o olvido, num devir mercadoria, produto, lixo. De fato, muitas vezes objetos encontrados no lixo são depois vendidos como mercadorias, e ao serem comprados tornam-se produtos - de forma que algum dia voltarão ao lixo e muito provavelmente à feira. Uma espécie de ciclo quebradiço se interpõe entre o objeto e nós, algo que nos faz pensar no tipo de valor que possui uma antiguidade. Porque fora dos padrões industriais e consumistas, os objetos-lembrança encontrados na feira estão conectados a uma espécie de fetiche do colecionador.
Num mundo desencantado (e aqui me refiro aos países onde a maioria das pessoas é de classe-média) baseado na idéia de progresso industrial e revolução (séc. XIX), assim como no consumo e na nostalgia (séc. XX), vivemos quase duzentos anos voltados à questão do valor. A grande maioria dos filósofos e sociólogos contemporâneos por algum instante tocaram este tema. Trata-se de algo que nos indica uma queda, onde havendo perdido seu poder religioso, os objetos deveriam encontrar uma nova forma de hierarquia. Um mundo objetificado, coisificado, alienado, reificado, mas onde ainda podemos apostar no encontro com o inusitado. Pois como poderíamos inserir a questão da alienação, do privilégio e do valor no objeto-antiguidade?
Uma fotografia anônima, encontrada no lixo ou na casa de alguma senhora falecida, vendida depois na feira e comprada por alguém que ao adquiri-la sentiu todo um prazer - estremecimento este talvez multiplicado ao chegar em casa e escolher um lugar para a fotografia, ao decifra-la com calma. Parece aqui tratar-se de um uso psicológico e não funcional. Algo que não surge da vontade de evidenciar privilégio social. Algo, finalmente, não alienado, pois evidenciando em cada traço sua história, ainda que signo do desperdício e da reciclagem pós-moderna, do excesso de processos de memorização num mundo que sofre de amnésia. Nas feiras as pessoas parecem buscar uma memória que não possuíram, numa nostalgia de algo que não viveram.
Não é um valor de troca, não possui um valor de uso para além do prazer psicológico, não é um objeto dentro da lógica do privilégio e tampouco dentro da lógica da alienação. O que então?
Walter benjamin, em Je Déballe ma Bibliothèque (1931), fala que o verdadeiro prazer do colecionador emerge a cada vez que ele retira os objetos de suas estantes para reordena-los. Ao estar sentado entre suas aquisições no chão, limpando-as, revendo-as uma por uma, recolocando-as nas prateleiras, é como se vivenciasse de novo uma infância perdida. Por detrás de cada aquisição há um instante, um dia na vida do colecionador. A sua memória se confunde com a memória destes objetos, de forma que sem o colecionador eles não fazem sentido. Assim, por detrás de cada coleção, de cada ordem, há uma patologia, um caos, as estantes vazias e os objetos no chão - o caos de suas memórias. E quanto mais ordenada é a coleção, mais forte é esse caos, que vibra em cada objeto, pois toda ordem quando é demasiado meticulosa esconde por detrás de si uma irracionalidade.
Renomear o objeto, reclassificá-lo, taxionomizá-lo, preserva-lo, o colecionador recria assim o objeto a cada instante, como se tratasse de uma espécie de batismo, de recriação do mundo, fazendo da antiguidade algo novo, reconstruindo sua história num processo de ressignificação.
A ligação que faz o objeto com a morte de alguém (de seu antigo colecionador, de seu antigo mestre, da pessoa da qual aquele objeto foi uma memória) e com uma espécie de infância perdida (de um outro tempo, uma nostalgia, um paraíso perdido) dá ao objeto uma espécie de encanto, de mais-além não religioso. O objeto como algo retirado de seu tempo e que vem nos levar de volta.
Cada antiguidade possui uma marca do tempo. A feira de antiguidades é ela mesma algo mortífero, orgânico, onde maculamos a história dos outros, onde maculamos a nós mesmos ao deixar-nos penetrar pela memória de alguém já morto. Ao levar para casa todas estas lembranças podemos estar trazendo conosco algo carregado de uma história que nos sobrepassa. Algo manchado, marcado pela duração. Algo que possui uma aura - um objeto único, original, que possui traços diretos de seu autor, e que nos remete a uma distância, a um outro espaço-tempo, algo que nos transporta. Como a própria feira, que é efêmera, mas de onde surgem flashes de eternidade. Pois todo centro é um lugar que nos conecta a uma distância. Todo um reencantamento do mundo.
Walter Benjamin fala da feira como lugar da fala. Michel De Certeau considera os feirantes como verdadeiros arquivos da cidade, como memória da rua. Os fisiólogos da cidade, que no século XIX buscavam tipos sociais nas ruas das capitais tradicionais, viam na feira o encontro entre todas as camadas e regiões do homem urbano moderno. Por outro lado, para além da crônica, da feira como palco onde se encena o drama cotidiano, para além de uma antropologia realista que busca rostos, marcas do tempo nas pessoas, podemos apontar em direção à feira como lugar de passagem, como espaço-limite, como fronteira entre mundos contíguos (espaço intersticial análogo à particularidade do objeto vendido nesta mesma feira de antiguidades). Ao invés de pensar a feira de antiguidades de acordo com a história dos costumes, gostaria de pensa-la como heterotopia.
Espaço microcósmico onde prevalece a simultaneidade, onde todos os tempos e lugares se condensam numa justaposição, a heterotopia foi proposta como conceito por Michel Foucault num texto chamado Espaços outros, de 1967. Suas seis características são : sua presença em todas as culturas (o jardim babilônico, o tapete persa, o cinema, são todos heterotopias); a alteração de sua função de acordo com o tempo (o que antes podia ser sagrado torna-se profano – como por exemplo o prostíbulo em algumas culturas –, o que antes era fechado torna-se aberto); a justaposição de espaços e tempos incompatíveis num mesmo lugar (a heterotopia é a realização de uma utopia); a presença de uma delimitação temporal que Foucault chama de heterocronia, ou seja, uma ruptura com relação à duração cotidiana, um intervalo, seja ele a partir de um congelamento do tempo a partir da preservação (museu, arquivo), ou de um salto temporal (ao entrar numa igreja, por exemplo); sua abertura e fechamento, a possibilidade ou não de penetrá-la; uma função dialética, de oposição e troca com a sociedade que a engloba.
E por mais que apliquemos estas seis características em nosso objeto de estudo, a feira de antiguidades continuará sendo uma heterotopia muito particular. Se por um lado trata-se de um espaço de memória, onde diversos tempos coabitam um mesmo espaço, por outro, em oposição ao museu, ao arquivo, ao monumento, a feira de antiguidades não é o que os historiadores costumam chamar de “lugar de memória”, pois, prevalecendo a troca em lugar da preservação, o movimento em oposição à vitrine, e não sendo a feira de antiguidades em geral um lugar marcado por um acontecimento histórico específico, percebemos nela, ao contrário, um sistema aberto, onde os objetos estão em vias de consumo, de tornarem-se mais e mais ruínas, predominando aqui a aceleração e não a imobilidade do tempo. A feira de antiguidades é, enfim, uma heterotopia que se queima.
Ao consumir a memória de anônimos temos a sensação de estar permanentemente destruindo-as. Ao ver uma fotografia e tira-la da ordem, ao comprar um objeto sem comprar todos os que vêm com ele, não somos conscientes, muitas vezes, de que realizamos nossa parte nesse caos, pois esse mesmo objeto (comprado ou tirado da ordem) nunca mais voltará a seu “lugar” (seria como se embaralhássemos os livros de uma biblioteca, ou as fotografias de um arquivo - provavelmente nunca encontrarão sua ordem novamente). Por um lado aceleramos a decomposição desta memória mesmo que, por outro, ao comprar algo, inserimos os objetos adquiridos em uma nova ordem, uma nova memória, agora nossa, num processo de ressignificação semelhante ao dos filmes de found footage.
Há portanto a sensação de que nunca vemos um mesmo objeto duas vezes na mesma feira. Entrópica, caótica, indomesticável, não apreensível, a feira de antiguidades é um espaço de lembranças mas também de olvidos, lugar de passagem, lugar-entre (in-betweenness), interstício entre o centro e a periferia.
A quase totalidade de feiras de antiguidade se encontra em vias de acesso, entre viadutos ou sob eles, ao lado de portos, rios, na saída de cidades, em suas portas, em seus faubourgs, além-muros, na proximidade de um anel viário, etc. Espaço comunicativo onde reina Hermes (Exú), o deus mais jovem e mais velho, ídolo dos comerciantes e dos ladrões, deus da palavra, da comunicação, que une os pontos no espaço, que une os espaços entre si, que abole as fronteiras através do encontro entre o telúrico e o divino, o céu e a terra, o vertical e o horizontal; deus ardiloso, onde o verdadeiro se confunde com o falso através do artifício, deus da negociação, da manha, da lábia. Aqui prevalece a malandragem, pois há de se criar uma espécie de lógica do acaso para poder “encontrar” os objetos queridos na feira, e para compra-los por mais barato ou até mesmo consegui-los de graça. Toda uma lógica popular que nem obedece a ordem dos fatos e nem se revolta.
Lugar afeito à deriva devido a seu aspecto iniciático, através do qual podemos entrar mais facilmente em contato com a alteridade, a feira de antiguidades está entre a constelação e a nebulosa, o caos e o microcosmos, entre o centro e a tábula rasa, pois o excesso de informações pode encaminhar-nos a um grande vazio - assim como as cores ao girarem: dão em branco. Pois a deriva contínua nos leva ao delírio, mas também à planície por sobre as palavras.
Os outdoors, o cinema, as mil propagandas na rua, os objetos vendidos na feira – lemos em movimento. São telas estáticas que deciframos ao passar. Ao contrario do livro que possui páginas que movemos para seguir a leitura, a leitura na cidade (e na feira) depende de nosso movimento. O tempo aqui é necessariamente uma questão de posicionamento no espaço. De forma que, ao caminharmos na feira de antiguidades, passamos, passo a passo, por séculos distintos.
“Costuma escrever-me da África. Comparava o tempo africano com o europeu e também com o tempo asiático. Dizia que, no século XIX, a humanidade tinha chegado a um acordo com o espaço, e que a grande questão do século XX era a coexistência entre diferentes conceitos de tempo.” (Sans Soleil, Chris Marker, 1983).
“Creio que a inquietitude hoje concerne fundamentalmente ao espaço, sem dúvida muito mais que ao tempo; o tempo não aparece provavelmente que como um dos jogos de distribuição possíveis entre os elementos que se distribuem no espaço”. (Des espaces autres, 1967, Michel Foucault).
Parece que a afirmação de Foucault responde à questão de Chris Marker. Trata-se de um tempo estóico, espacializado. Uma espécie de imagem-atração, entre a imagem-movimento e a cena, a planície, o horizonte. Os objetos na feira, seus vendedores, compradores, flâneurs, todos estão no olho do furação, no centro de memórias tornadas objeto, de signos que saltam (nós saltando entre eles) e que algo querem nos dizer.
De forma que, se a feira de antiguidades é um espaço-entre, os objetos da feira de antiguidades são também de condição intersticial. Entre a memória oficial e a memória subjetiva, entre a crônica e a história, entre a lembrança e o olvido, num devir mercadoria, produto, lixo. De fato, muitas vezes objetos encontrados no lixo são depois vendidos como mercadorias, e ao serem comprados tornam-se produtos - de forma que algum dia voltarão ao lixo e muito provavelmente à feira. Uma espécie de ciclo quebradiço se interpõe entre o objeto e nós, algo que nos faz pensar no tipo de valor que possui uma antiguidade. Porque fora dos padrões industriais e consumistas, os objetos-lembrança encontrados na feira estão conectados a uma espécie de fetiche do colecionador.
Num mundo desencantado (e aqui me refiro aos países onde a maioria das pessoas é de classe-média) baseado na idéia de progresso industrial e revolução (séc. XIX), assim como no consumo e na nostalgia (séc. XX), vivemos quase duzentos anos voltados à questão do valor. A grande maioria dos filósofos e sociólogos contemporâneos por algum instante tocaram este tema. Trata-se de algo que nos indica uma queda, onde havendo perdido seu poder religioso, os objetos deveriam encontrar uma nova forma de hierarquia. Um mundo objetificado, coisificado, alienado, reificado, mas onde ainda podemos apostar no encontro com o inusitado. Pois como poderíamos inserir a questão da alienação, do privilégio e do valor no objeto-antiguidade?
Uma fotografia anônima, encontrada no lixo ou na casa de alguma senhora falecida, vendida depois na feira e comprada por alguém que ao adquiri-la sentiu todo um prazer - estremecimento este talvez multiplicado ao chegar em casa e escolher um lugar para a fotografia, ao decifra-la com calma. Parece aqui tratar-se de um uso psicológico e não funcional. Algo que não surge da vontade de evidenciar privilégio social. Algo, finalmente, não alienado, pois evidenciando em cada traço sua história, ainda que signo do desperdício e da reciclagem pós-moderna, do excesso de processos de memorização num mundo que sofre de amnésia. Nas feiras as pessoas parecem buscar uma memória que não possuíram, numa nostalgia de algo que não viveram.
Não é um valor de troca, não possui um valor de uso para além do prazer psicológico, não é um objeto dentro da lógica do privilégio e tampouco dentro da lógica da alienação. O que então?
Walter benjamin, em Je Déballe ma Bibliothèque (1931), fala que o verdadeiro prazer do colecionador emerge a cada vez que ele retira os objetos de suas estantes para reordena-los. Ao estar sentado entre suas aquisições no chão, limpando-as, revendo-as uma por uma, recolocando-as nas prateleiras, é como se vivenciasse de novo uma infância perdida. Por detrás de cada aquisição há um instante, um dia na vida do colecionador. A sua memória se confunde com a memória destes objetos, de forma que sem o colecionador eles não fazem sentido. Assim, por detrás de cada coleção, de cada ordem, há uma patologia, um caos, as estantes vazias e os objetos no chão - o caos de suas memórias. E quanto mais ordenada é a coleção, mais forte é esse caos, que vibra em cada objeto, pois toda ordem quando é demasiado meticulosa esconde por detrás de si uma irracionalidade.
Renomear o objeto, reclassificá-lo, taxionomizá-lo, preserva-lo, o colecionador recria assim o objeto a cada instante, como se tratasse de uma espécie de batismo, de recriação do mundo, fazendo da antiguidade algo novo, reconstruindo sua história num processo de ressignificação.
A ligação que faz o objeto com a morte de alguém (de seu antigo colecionador, de seu antigo mestre, da pessoa da qual aquele objeto foi uma memória) e com uma espécie de infância perdida (de um outro tempo, uma nostalgia, um paraíso perdido) dá ao objeto uma espécie de encanto, de mais-além não religioso. O objeto como algo retirado de seu tempo e que vem nos levar de volta.
Cada antiguidade possui uma marca do tempo. A feira de antiguidades é ela mesma algo mortífero, orgânico, onde maculamos a história dos outros, onde maculamos a nós mesmos ao deixar-nos penetrar pela memória de alguém já morto. Ao levar para casa todas estas lembranças podemos estar trazendo conosco algo carregado de uma história que nos sobrepassa. Algo manchado, marcado pela duração. Algo que possui uma aura - um objeto único, original, que possui traços diretos de seu autor, e que nos remete a uma distância, a um outro espaço-tempo, algo que nos transporta. Como a própria feira, que é efêmera, mas de onde surgem flashes de eternidade. Pois todo centro é um lugar que nos conecta a uma distância. Todo um reencantamento do mundo.

3 coisa(s):
E ai, Luquinhas, como assim " roubado"?? Eu curti esse texto. Fui no sábado passado a Feira da Praça VX e vivemos indo a feiras...Zé vive catando fotos de familia e eu curto certos objetinhos... Achei interessante as reflexões. E vc, já tá há muito tempo por aí... Grande beijo
Patricia
Inspirador.
http://maxalas.blogspot.com news,video,photo,sport
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