[LEITURAS E APONTAMENTOS]
...das coleções e das cidades...
*(tudo sempre inacabado - a ruína prédio em construção)-
Método: montagem de citações. Reapropriação e colagem. Found footage. Ready made.
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Susan Sontag diz que “colecionar citações é praticar o surrealismo”. Essa frase rodeou meu pensamento até descobrir um sentido interior.
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A obra de arte é sempre uma cópia. O original é a vida, mas também o olhar que se entrega à ilusão de ver a vida como algo único e valioso. Porque somos todos a cópia de algo anterior. O amor, segundo Sthendal, se modificou no momento em que as donzelas francesas começaram a se deixar levar pelos romances do século XVIII. Repetimos o que vemos no cinema, o que vemos na fotografia de nossos pais, o que lemos, o que ouvimos. A questão está em acreditar numa “cópia conforme”, na cópia como original, em considerar algo como sendo “arte”, destacando-o da realidade como fazemos em determinados momentos com nossa vida. Entregar ao objeto uma vibração, acreditar que há saltos, na vida, que nos levam a um paraíso perdido, a algo distante e anterior. Refletir-se.
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Benjamin diz que o colecionador vive sob o caos da lembrança assim como todo homem apaixonado é subjugado por um caos maior. Em cada objeto de sua coleção enxerga um momento de sua vida. Ele se reflete nos objetos. Se dissolve e se reifica nos próprios objetos de acordo com a lógica da posse. Le plus profond enchantement du collectionneur est d'enfermer la singularité dans un cercle magique où elle se fige tandis qu'elle est parcourue d'un ultime frisson - le frisson d'être une acquisition. Trata-se de um caos anterior (interior), uma freqüência caótica que é ordenada (como ao ninar um bebê, apaziguamos e damos ritmo à sua dúnamis caótica). Mas de alguma forma permanece a vibração. a qualquer momento pode voltar o caos. Por detrás de cada estante há o leilão, a feira, o momento em que o objeto é uma espécie de vivo-morto, que está entre ser mercadoria e produto, entre perder-se no valor de troca e reganhar seu uso (psicológico). Ao ser adquirido, o objeto se insere numa nova ordem, é batizado pelo colecionador, ressurge das águas do caos pré formal, literalmente renasce, volta a ser novo. Mas possui ainda interiormente a vibração anterior. E é liberando esta vibração que o colecionador recebe todo o seu estremecimento de volta. Pois o seu maior prazer é desfazer as estantes para reordená-las.
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Da mesma forma que colecionava livros de magia, livros infantis e outras tantas curiosidades, Walter Benjamin colecionava citações. Planejou escrever um ensaio inteiramente de citações. Alguns autores dizem que seria impossível tal empreendimento pelo fato de que todo ensaio deve possuir uma subjetividade marcada, a presença do autor e de sua memória. Crêem que pelo fato de não serem textos realizados pelo ensaísta, não estaria ele escrevendo, mas apenas montando materiais alheios. Ao meu ver se enganam por não conhecerem a especificidade do colecionador. Porque como colecionador Benjamin estaria em cada uma das citações, dando-lhes sentido, mantendo o círculo mágico que proporcionaria suas vibrações em conjunto. Seria ele o escritor, através de sua mão o anterior se faria ulterior. O caos de suas lembranças estaria presente na citação como aquisição.
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De forma que os objetos (citações) se ordenam para esconder (e coagular) um caos anterior (interior). A ordem é uma espécie de equilibrista sobre o abismo (atrofia do pathos colecionista). A qualquer momento pode se estilhaçar.
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Penso em Stefan Zweig, que possuía uma coleção de partituras do Beethoven, além de sua mesa de trabalho, um violino e uma bússola.
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Tudo começa e termina na feira. O produto volta sempre de alguma forma a ser mercadoria ainda que sendo destruído e reciclado. Me lembro do Candomblé, que tem como primeiro passo no ritual de iniciação a ida à feira para a escolha dos materiais que formarão parte do primeiro ebó (sacrifício). Ou de Gilgamesh que, depois de buscar em vão a imortalidade, volta à sua cidade natal em dia de feira (de alguma forma a maior das fugacidades).
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Deslocamento e pensamento: a cidade como texto.
De acordo com a leitura dinâmica, ler mais veloz é reter mais sentidos (maior concentração). Poderia-se aplicar o mesmo de acordo com a leitura da cidade? Caminhar veloz é reter mais sentido? C’était un rendez-vous a Paris (Claude Lelouch, 1976). Um carro atravessa a cidade em 10 minutos. De Porte Maillot à Sacre Couer. O posicionamento de câmera indica uma metade de céu e outra de chão. Ponto de fuga. Amanhece. A cidade vibra. A dúnamis (fluxo vital, sentido) da cidade concentrada pela velocidade.
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O meu corpo se desloca sem mover-se. Se torna uma espécie de serpente (verme) sem patas. Está em ruína. Possui uma corcunda que se chama mochila, onde conserva textos e páginas em branco, além de um computador que envelheceu rapidamente.
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Segundo Perec os surrealistas bolaram táticas para o embelezamento de Paris. Como inclinar um pouco a Torre de Saint-Jacques. Ou cortar o Panteão verticalmente e separar suas duas metades em 50cm. De alguma forma foi o que fez Gordon Matta-Clark. Introduziu cortes, sobreposições de buracos em paredes de ruínas urbanas em Paris (na época da demolição e modernização de Les Halles, onde um mercado e casas populares foram substituídos por um museu e um shopping subterrâneo). Uma deformação onde ecoava o projeto surrealista, e o texto de Perec, escrito na mesma década. Radicalização da deformação de algo já em vias de destruição – como seu pai, Roberto Matta, que pintando deformava corpos humanos (Matta disse uma vez que os corpos humanos estavam “mal feitos”).
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Me lembro agora de Haussman, que disse: sou um demolidor artista. O espírito desconstrutivo que, segundo Benjamin, deseja aplanar a realidade, destruir para criar novos caminhos e respirar. (No caso de Haussman há também toda uma questão repressiva, um desejo de conservar).
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Bruce Bégout opõe à figura do flâneur a do errante. O primeiro busca, caminhando na cidade histórica, uma alteridade, uma diferença que o retire de seu cotidiano ordinário. O segundo, fruto da subúrbia, cidade sem centro nem identidade, se desloca de carro pelas autovias, vendo a cidade passar como se estivesse no cinema. Sem identificar-se com nada, vive da pura diferença de forma que busca, de um lado, a destruição total (através da permanente imaginação de acidentes em alta velocidade), e de outro o normal, a estabilização de uma casa, uma família, uma história. De fato, a cidade tradicional é o palco da história, onde predomina a fala, a crônica, enfim, é uma cidade-teatro, enquanto a cidade genérica, a subúrbia, é onde não há palavra, onde o ponto de referência está no cruzamento de viadutos, onde as pessoas socializam na distribuidora automática de vídeo, onde a janela do carro funciona como uma tela. Antes o heterotopos estava na rua, no palco, na feira, no cemitério, hoje está na tela do computador, nos elevadores, na janela do carro, no cemitério de carros. E se aqui se opõem cinema (vídeo) e teatro (crônica), é porque há por detrás de tudo isso a oposição de espaço finito e espaço infinito. A cidade histórica possui um centro, é o reflexo de uma concepção copernicana do espaço, é geocêntrica e hierárquica. Limitada pelas luzes do anel viário, se expande através de espelhos, magias, vitrines, metrôs, correspondências, cruzamentos, enfim, é autoreferente e autofágica. Por outro lado a subúrbia é infinita, repetitiva, sem centro nem bordas, como o deserto, como uma nebulosa onde não surgem constelações possíveis, algo talvez irrepresentável, onde prevalece a imaginação e a fantasia, pequenos paraísos artificiais que substituem a própria vida, onde a televisão fala mais alto que o trabalho. De um lado temos tempo, mas não temos espaço. Do outro temos um espaço sem tempo, ou melhor, um tempo espacializado, difuso, desconcentrado, acentrado, acéfalo. Aqui finalmente faz sentido o cinema do tempo, onde o novo nasce já morto, onde, ao invés de nascerem, as coisas são diretamente abortadas, como na seqüência final do Eclipse (Antonioni), ou no vazio dos edifícios de um bairro a ser demolido em The Hole (Tsai Ming-Liang), filmes que se opõem às antigas sinfonias da cidade (Rien que les heures, A propos de Nice, The Bridge, etc). Como também em “El último atardecer en la Tierra”, conto cinematográfico de Roberto Bolaño. Ao invés de uma simultaneidade concentrada (como em Delaunay), temos uma simultaneidade difusa (ainda a ser pintada / ?). As manifestações artísticas que refletem a cidade genérica ainda começam a se desenvolver. Temos um princípio na literatura de James Ballard, no cinema de Antonioni e David Cronenberg, na música de Brian Eno, Kraftwerk, Cluster (reflexo de aeroportos e de cidades como Dusseldorf).
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O blasé da cidade moderna é substituído então pelo indiferente da cidade genérica. Antes tratava-se de manter um principium individuationis diante de um mundo cada vez mais acelerado (a atitude típica do blasé: fingir que não viu) - um mecanismo de defesa dos últimos restos de um "eu" - o indivíduo inventado pelo século XIX. Já indiferente é aquele que (pós-indivíduo), diante de tantas possibilidades (a imagem do mundo como autopista), diz "tanto faz". Ao escolher tudo ao mesmo tempo serve de óleo nas marchas da aceleração capitalista. É como se apertando mais botões (realizando todas as bifurcações ao mesmo tempo, deixando a suas escolhas flutuarem, numa mistura de dúvida e convicção) trabalhasse desenfreadamente para a soma de todas as possibilidades - o homem atual é um algoritmo, um homem-simulação. No Google ele atravessa todos os caminhos antes mesmo de desejá-los. Somos a primeira geração lap top - das abas abertas ao ler e ver, na tela de cristal líquido, dez coisas ao mesmo tempo, a geração da enciclopédia virtual e dos caminhos que se bifurcam, estamos em todas partes ao mesmo tempo, deixando marcas e se esvaindo, se dissolvendo em vários espaços num instante expandido. Somos o elogio do estilhaço até mesmo nas novas identidades atrofiadas (erguendo memórias coletivas desde o fundo do abismo). Diante de duas possibilidades (escolher escolher e escolher não escolher) conseguimos a façanha de escolher os dois, um no outro.
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A meu ver a concepção de flâneur apresentada por Bégout remete, de alguma forma, à pessoa que deseja desaparecer no indivíduo (na Babilônia, no espetáculo), desaparecendo na massa, fugindo de sua família, ao mesmo tempo em que as ruas se tornavam boulevares, e o centro de socialização deixava de ser o bairro para entrar nas passagens. O errante já remeteria ao indivíduo que deseja reaparecer na pessoa (na volta à cidade tradicional, na ascensão social, no berço), o ser perdido que, apesar de estar acostumado a ser só, deseja sair da alteridade para reencontrar o berço familiar. Será?
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Possuímos de alguma forma três tipos de cidades. Uma cidade tradicional que hoje vive de vender sua história e sua identidade ao turismo. Uma cidade genérica, sem história e sem limites, sem centro nem identidade. Uma cidade com centro e com identidade, mas de alguma forma no limiar da história e da perda de identidade. Uma terceira cidade que é a cidade americana (a africana) por excelência. Uma cidade onde permanece havendo uma simultaneidade concentrada, mas que não nos encaminha a um sentido, permanecendo numa espécie de caos anterior (como diz Henry Miller com relação a Nova York: uma perda de tempo). A cidade que está sempre entre nascer e morrer. A cidade de contrastes. / Na primeira temos a imagem-movimento (com cinema mudo, com sua montagem gramatical, com suas metáforas e sua relação com a escrita); na segunda temos a imagem-tempo [um tempo espacializado antes chamado tempo morto, do desaparecimento do sentido e da metáfora em L’Aventura, um cinema sem gramática para além da cena como vida, um cinema com atmosfera de ficção científica, o elogio do humano naquilo que antes críamos inumano – a zona de Tarkovsky, a fábrica do Deserto Vermelho, etc]; na terceira temos a imagem-atração [onde volta a prevalecer a montagem vertiginosa mas agora sem gramática, sem metáfora, sem sentido, onde nos deixamos levar por choques que nos dão uma sensação de cosmos, de centro (como ao ver as antenas de São Paulo), de mistura entre apocalipse e paraíso perdido, mas onde este centro se apresenta atrofiado, através de uma fala automática, teleguiada, como quando vemos pessoas falando sozinhas na rua].

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