Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

escrevendo muito sobre paris. uma espécie de olhar para o centro em nome da periferia.
não por uma questão política. mas pensando paris de acordo com o que é a cidade hoje em dia - que é o oposto de paris, o oposto de uma cidade com centro.
a base do meu ensaio:
a questão do espaço finito (que nos leva à idéia de tempo arquetípico) e do espaço infinito (que nos leva a um tempo histórico a princípio, caótico e difuso, depois).
paris é uma cidade finita. acabada pela peripherique. é como se o que há ao redor não existisse.
por outro lado a cidade genérica (a suburbia, as periferias, los angeles, as cidades chinesas, e de alguma forma brasilia) é uma cidade sem centro e sem fim.

de forma que a claustrofobia de paris, o fato de ser uma cidade de 12 kilometros de extensão (menos que a ponte rio-niteroi), o fato de ser uma cidade até hoje com muros, nos leva a pensar num espaço hierarquizado, copernicano, geocêntrico, enfim. e esse espaço é, de acordo com o que diz o ernst cassirer com relação ao espaço-tempo finito, o que nos leva a um tempo de correspondencias, um tempo estelar, como na astrologia, um tempo arquetípico (diz mircea eliade), onde o espaço finito de alguma forma se amplia. tudo aqui se torna texto. a cidade vira um mandala. surge o sentido da magia em paris (o espiritismo nasceu aqui com alain kardec, o benjamin colecionava livros de magia, o jodorowsky até hoje joga tarot aqui, etc), dos espelhos por toda a cidade, do conceito de correspondencia desenvolvido pelos simbolistas e especialmente pelo baudelaire, a ideia de constelação, de cidade-teia-de-aranha, de cidade boucle, arrondissement, caracol que gira pra dentro e pra fora ao mesmo tempo (numa analogia entre o micro e o macro - cada rua de paris é paris inteira - e entre paris e o mundo - a capital do mundo, a cidade da luz, a cidade cosmopolita, etc).

por outro lado a reforma do haussman nos leva a uma perda da ligação entre as pessoas e as ruas, as ruas e suas memórias, suas conversas. a morte da palavra magica, da identidade, em nome da higienização, a expulsão das pessoas do centro à periferia, o surgimento do banlieue, do espaço infinito, do deserto.

esse deserto, essa destruição de paris é o fator que nos leva ao surgimento da fotografia e do cinema. é a turbulencia do seculo XIX anunciando a perda das grandes narrativas, enfim. de forma que, a meu ver, o cinema é uma expressao do banlieue, que ainda nao se encontrou. o cinema é o carro. nao é o flaneur. o flaneur é a crônica, o teatro, a fisionomia de tipos sociais. é a palavra. o texto. a cidade como texto. todo o contrario do cinema... que é a janela do carro... os edificios... o vazio... o tempo espacializado... enfim.

paris é o labirinto da babilônia.
os banlieues são o labirinto da arábia, o deserto sem centro nem borda.
o conto do borges pode ser relido dessa forma:
uma pessoa do banlieue jogada no meio de paris pode se cansar, mas uma hora sai do labirinto.
uma pessoas de paris jogada no meio do banlieue morre de fome e de sede no meio do deserto dos viadutos.

o tempo do banlieue (devo falar suburbia ou cidade genérica, porque banlieue é mais "periferia", se refere a um centro que nem sempre existe) é um tempo caótico, de permanente mudança que acaba não mudando nada. ao invés da constelação, no banlieue temos a nebulosa. é como se paris fosse a vida (finita) e o banlieue o além-vida (infinito, mas sem sentido). o banlieue dá sentido a paris e o contém.

e tem o errante... o surgimento do errante... que não é o flaneur... que é o contrário do flaneur...

ou o indiferente... que é distinto do blasé...
de tanto pensar em paris surge a imagem de uma não paris (com edifícios sem memória e sem identidade)...

1 coisa(s):

fernando mendes rodrigues disse...

chuchu, esse texto ilumina uma coisa que paira pra mim acho que desde que li o pereceval... essa coisa do "pra lá não" toda cidade tem isso, não é? zonas malditas... acho que isso tem a ver com as passagens para o além nos contos do graal... cê tá andando, tá andando, e de repente aparece uma figura estranha e fala pra você não passar, e tudo fica estranho... dentro de meu campo tacanho de referências, uma coisa que tem em la boca, essa coisa de "siempre para la derecha, para la izquierda, jamás!" ou vice-versa... então essas figuras como o evaristo carriego, o borges, logo que voltou da europa pela primeira vez, o bandeira, o joão do rio, esses mitólogos urbanos, são meio como o gornemant, do perceval, o mestre dele, o iniciador, lo que ilumina los arrabales, com todas as reminiscências ancestrais que essa iniciativa evoca... achei foda... cê é... lov u...