Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

FRAGMENTOS DIÁRIOS (Portugal, Novembro de 2009)

 

 

 

A minha vida é como essa luz que deixa passar claridade para o outro aposento. Por isso, é conforme a este dia, ao outro, ao dia seguinte, e produz semelhança, sem o ónus da monotonia. Tenho a sensação de deixar espalhados pela casa, e pelos móveis, pedaços simples de textos livres que, de antemão, nunca serão um livro. (Maria Gabriela Llansol. LISBOALEIPZIG 1).

 

Querida f,

 

Escrevo de Sintra – o anverso desse postal. De dentro de uma pequena gruta – clara – gotejando. Estou só. Comi tangerina: bebi água de chuva na fonte : espalhei as cascas por aí. O vento / farfalhar nas árvores / o silêncio não impede o som dos cães, sirenes, automóveis, contínuas obras lá embaixo. As folhas molhadas no chão / Rampas / escadas / não há ninguém. E pensar que aquí viveram Byron, Glauber, Vergílio Ferreira, Llansol. Porque em Sintra não se morre – passamos vivos pro outro lado.

Enfim. Queria só te mandar um beijo e algo dessa luz – que é humidade.


Lucas Parente

2/12/9

 

Portugal é a mistura do familiar com o estrangeiro. É e não é a mesma língua.

Aquí tenho que voltar a aprender os desvios urbanos. Os saltos – buscar os intervalos.

Cada cidade tem a sua manha. Todos chegamos analfabetos.

Aprender o que é uma sopa de pedra, o que é uma bifana, aprender a seguir outros sentidos além do gravitacional. Redescobrir o português sem tentar imitá-los – sincopar a fala?

 

Fico pensando nas estradas macarrônicas de Portugal (do porto a Lisboa). Tem a A1, a N12… ao redor do Porto um verdadeiro nó. Os miolos atrofiados com a injeção do euro. Um país que produz vinho, azeite e cortiço.

 

Lisboa. Cinza. Chove. Gaivotas alucinadas. Luzes de natal. O drum n’ bass tripeiro desmentiu a imagen do silêncio lusitano. (((imagens da chegada em Lisboa pela estrada)).

 

Um livro linear lido fora da ordem se torna descontínuo.

Agora, um livro descontínuo lido de forma descontínua se torna linear?

Deve haver uma ordem específica que cose uma linha clara entre os fragmentos. Talvez uma única linha possível em meio a tantas análises combinatórias.

 

O turista latino-americano (estrella distante).

 

Uma sociedade da juventude, mas também de velhos. Uma sociedade de desocupados.

 

Essa filmagem é de barco. Essa é de bonde. Essa de taxi (seguido).

 

Em Alfama, dia 31/11 finalmente experimento a luz de Portugal.

Não filmei. A bateria da máquina acabou.

 

Tenho medo de deixar passar a minha estação.

 

Normalmente viajo sem câmeras.

Me lembro melhor assim.

Porque, se não, fica apenas o vídeo.

“Como faziam para se lembrar antes do digital?”

A invenção de Morel e a “memória perfeita”.

Entro na lembrança e deixo de viver.

A morte é a mayor produtora de sentido.

 

O descontínuo é o geral. Como funciona a nossa percepção.

O contínuo é a realidade. Os fragmentos hologramáticos.

 

 

Alô

Alô

Alô!

Tá me escutando? Alô.

Alô.

Agora sim.

Oi.

Então. Eu tô na cidade.

Ah. Que bom.

Onde a gente pode se encontrar?

Faz tanto tempo…

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