I - Cubo mágico
Tem uma palavra que sempre me inquieta em francês. Seuil significa umbral e não possui nenhuma especificidade que a diferencie de umbral a não ser que é uma palavra francesa e não portuguesa, de forma que a sonoridade e a trama da língua são outras, produzindo certas associações que acabam sendo também outras. Assim, a palavra seuil, apesar de ter o mesmo sentido que umbral, não tem nada a ver com umbral, seuil não é e nunca será umbral, teria que passar por uma série de deformações para se tornar umbral, deformações fonéticas, geográficas, psicológicas, de afinidade e dicção, elas não têm nem o mesmo número de letras. O que talvez aproxime seuil de umbral em termos de sonoridade é o l do final, de forma que ao pronunciar tanto seuil quanto umbral a boca parece que vai continuar aberta e tudo vai se apagando aos poucos. Ainda assim, parece que há uma suavidade a mais na palavra seuil, que vem do fato de que é da única consoante s que surge a palavra, e o resto são vogais que se entrelaçam e terminam aos poucos no l. Sendo que o s francês já é sexy, suave, soft, muito diferente do s seco do sertão cearense. Não quero aqui fazer uma defesa do francês como língua nobre e sofisticada. Ao contrário, penso que francês é língua sem musicalidade, sem aquela poesia do alemão, do italiano, e mesmo do russo, que tem algo dessa suavidade sem perder, no entanto, a pulsação cardíaca um tanto quanto arrítmica. De qualquer forma parece que há uma certa brutalidade na palavra umbral, e isso devido às três consoantes seguidas, esse “mbr” que me faz lembrar umbrella, que é guarda-chuva em inglês, e que ao contrário das três vogais seguidas de seuil, dão uma sensação de corte bruto imperativo. E isso porque o umbral é uma palavra oxítona, assim que o b fica com toda a força, enquanto umbra, do latim sombra, é paroxítona, o que deixa o som vagar mais tempo pelo m, realçando o sentido sensorial da palavra que vai quase virando sombra ela mesma. Resultado : eu não gosto tanto da palavra umbral quanto da palavra seuil, porque o sentido nessa última parece vibrar melhor de acordo com as associações que faço a partir da sua sonoridade. De qualquer forma, umbral e seuil significam exatamente a mesma coisa : o chão da porta que separa e une dois cômodos, o começo ou o final de uma experiência, de um pensamento, de uma vida, da juventude, enfim, o limite, a borda, a beirada, a passagem de um lugar a outro correndo o risco de se esbarrar. Umbral que parece vir de umbra. E seuil que vem de solea, semelle, solum, sol, solidus, solide e chão, enfim, daquela pedra que se coloca debaixo da porta para que as pessoas tropecem. E é curioso como agora o sentido etimológico inverte tudo o que eu sentia com relação à sonoridade das palavras, e de repente é o umbral que se faz aéreo em detrimento de um seuil bruto, terreno, barroso, e acaba que, por causa do entrelaço de um som quebrado com um sentido aéreo, umbral se torna ainda mais interessante que seuil, como se no abismo o ventoso e o rochoso não pudessem mais se separar. E os dois, umbral e seuil, se apóiam numa certa melancolia assim como os cotovelos no umbral da janela, a perda relacionada a todos os seuils, a noite que vem chegando, um ser se apagando, as topadas e feridas já que pecado vem de pé, significa tropeçar e tropeçamos sempre nos umbrais, esse lugar que é pura reticência. De repente, então, a palavra seuil me leva àquelas pinturas de David Caspar Friedrich onde vemos alguém de costas olhando a paisagem que não podemos ver, porque o centro da imagem são as costas desse alguém de quem vemos apenas os cabelos esvoaçados, assim que só podemos substituir o personagem que tapa a vista por nós mesmos e de repente estamos lá vendo a paisagem e respirando fundo. Perspectiva atmosférica, seuil é definitivamente uma palavra azul, entre o dia e a noite, é uma palavra que leva mais ao amanhecer que ao anoitecer, e não é porque escrevo esse texto às 7 da manhã enquanto amanhece prateado lá fora. Essa é uma sensação que me vem mais com a palavra seuil do que com a palavra umbral. E isso porque o bruto sonoro da palavra umbral me leva à própria palavra brutalidade, o u e o br, enfim, agora remetendo a lubrax, faz com que umbral seja palavra marrom, casa vazia com raios de sol entrando pela janela e quartos cheios de poeira. Assim que apesar de que as duas palavras signifiquem a mesma coisa, elas nunca significarão a mesma coisa. Duas palavras isoladas podem ter o mesmo sentido em duas línguas isoladas, mas seriam como dois lados incomunicáveis de um mesmo espelho, dois sentidos iguais e separados um do outro por, justamente, um umbral/seuil intransponível. Alguém que passou a vida inteira associando seuil com seul não pode pensar que seuil é a mesma coisa que umbral porque umbral não tem nada a ver com seul que é sozinho em português. Da mesma forma alguém que passou toda a sua adolescência associando umbral a lubrax não vai necessariamente associar seuil com o patrocinador do flamengo. É que as palavras, como os homens, nunca estão isoladas, não há índios isolados, e muito menos sentidos, já que a alteração de determinados sons gera outras palavras que acionam outras regiões da memória numa espécie de cubo mágico em que tentamos com que tudo fique verde mas nunca fica tudo verde, porque nunca vamos terminar de encaixar todos os sentidos numa trama, além do quê não se trata de trama, de trema, nem de cubo ou de sentido, quando tudo é trespassado por sensações químicas que saltam de uma tabela periódica e nos levam à conclusão de que nada é traduzível por nada e tudo é metamorfose. Cada som, cada vogal, cada palavra nanica que seja, toda inteira ou dividida, nos reenvia a outra palavra às vezes por questões infantis, como por exemplo : eu tinha um amigo que ao invés de dizer pizza, dizia pista e tudo ia pelos ares. Até hoje, quando escuto a palavra pizza, em determinadas ocasiões me vem à cabeça um pedaço de asfalto e um entregador de moto. Da mesma forma, sempre que ouço ou leio a palavra seuil me lembro de seul que significa sozinho e que é a palavra que vem logo depois no dicionário. É como se de repente toda um emaranhado de sentidos abrisse a porta e ali no umbral enxergasse uma pessoa sozinha talvez como num quadro do David Caspar Friedrich. E é isso que me inquieta em seuil e não em umbral. É como se de seuil emanasse toda uma imagem fantasmática com aura de infância e envelhecimento, de sonhar com o armário aberto dando no abismo, quando na verdade aprendi essa palavra há pouco mais de um ano ao chegar nessa cidade. E eu tento então repetir pra mim : je suis seul dans ce seuil, au seuil, à lui seul, e pensar que de alguma forma estar seul é ser seuil e tentar se colocar na posição daquele sujeito que está de costas e é a própria umbra do umbral.


