Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Exercícios de propagação

I - Cubo mágico

Tem uma palavra que sempre me inquieta em francês. Seuil significa umbral e não possui nenhuma especificidade que a diferencie de umbral a não ser que é uma palavra francesa e não portuguesa, de forma que a sonoridade e a trama da língua são outras, produzindo certas associações que acabam sendo também outras. Assim, a palavra seuil, apesar de ter o mesmo sentido que umbral, não tem nada a ver com umbral, seuil não é e nunca será umbral, teria que passar por uma série de deformações para se tornar umbral, deformações fonéticas, geográficas, psicológicas, de afinidade e dicção, elas não têm nem o mesmo número de letras. O que talvez aproxime seuil de umbral em termos de sonoridade é o l do final, de forma que ao pronunciar tanto seuil quanto umbral a boca parece que vai continuar aberta e tudo vai se apagando aos poucos. Ainda assim, parece que há uma suavidade a mais na palavra seuil, que vem do fato de que é da única consoante s que surge a palavra, e o resto são vogais que se entrelaçam e terminam aos poucos no l. Sendo que o s francês já é sexy, suave, soft, muito diferente do s seco do sertão cearense. Não quero aqui fazer uma defesa do francês como língua nobre e sofisticada. Ao contrário, penso que francês é língua sem musicalidade, sem aquela poesia do alemão, do italiano, e mesmo do russo, que tem algo dessa suavidade sem perder, no entanto, a pulsação cardíaca um tanto quanto arrítmica. De qualquer forma parece que há uma certa brutalidade na palavra umbral, e isso devido às três consoantes seguidas, esse “mbr” que me faz lembrar umbrella, que é guarda-chuva em inglês, e que ao contrário das três vogais seguidas de seuil, dão uma sensação de corte bruto imperativo. E isso porque o umbral é uma palavra oxítona, assim que o b fica com toda a força, enquanto umbra, do latim sombra, é paroxítona, o que deixa o som vagar mais tempo pelo m, realçando o sentido sensorial da palavra que vai quase virando sombra ela mesma. Resultado : eu não gosto tanto da palavra umbral quanto da palavra seuil, porque o sentido nessa última parece vibrar melhor de acordo com as associações que faço a partir da sua sonoridade. De qualquer forma, umbral e seuil significam exatamente a mesma coisa : o chão da porta que separa e une dois cômodos, o começo ou o final de uma experiência, de um pensamento, de uma vida, da juventude, enfim, o limite, a borda, a beirada, a passagem de um lugar a outro correndo o risco de se esbarrar. Umbral que parece vir de umbra. E seuil que vem de solea, semelle, solum, sol, solidus, solide e chão, enfim, daquela pedra que se coloca debaixo da porta para que as pessoas tropecem. E é curioso como agora o sentido etimológico inverte tudo o que eu sentia com relação à sonoridade das palavras, e de repente é o umbral que se faz aéreo em detrimento de um seuil bruto, terreno, barroso, e acaba que, por causa do entrelaço de um som quebrado com um sentido aéreo, umbral se torna ainda mais interessante que seuil, como se no abismo o ventoso e o rochoso não pudessem mais se separar. E os dois, umbral e seuil, se apóiam numa certa melancolia assim como os cotovelos no umbral da janela, a perda relacionada a todos os seuils, a noite que vem chegando, um ser se apagando, as topadas e feridas já que pecado vem de pé, significa tropeçar e tropeçamos sempre nos umbrais, esse lugar que é pura reticência. De repente, então, a palavra seuil me leva àquelas pinturas de David Caspar Friedrich onde vemos alguém de costas olhando a paisagem que não podemos ver, porque o centro da imagem são as costas desse alguém de quem vemos apenas os cabelos esvoaçados, assim que só podemos substituir o personagem que tapa a vista por nós mesmos e de repente estamos lá vendo a paisagem e respirando fundo. Perspectiva atmosférica, seuil é definitivamente uma palavra azul, entre o dia e a noite, é uma palavra que leva mais ao amanhecer que ao anoitecer, e não é porque escrevo esse texto às 7 da manhã enquanto amanhece prateado lá fora. Essa é uma sensação que me vem mais com a palavra seuil do que com a palavra umbral. E isso porque o bruto sonoro da palavra umbral me leva à própria palavra brutalidade, o u e o br, enfim, agora remetendo a lubrax, faz com que umbral seja palavra marrom, casa vazia com raios de sol entrando pela janela e quartos cheios de poeira. Assim que apesar de que as duas palavras signifiquem a mesma coisa, elas nunca significarão a mesma coisa. Duas palavras isoladas podem ter o mesmo sentido em duas línguas isoladas, mas seriam como dois lados incomunicáveis de um mesmo espelho, dois sentidos iguais e separados um do outro por, justamente, um umbral/seuil intransponível. Alguém que passou a vida inteira associando seuil com seul não pode pensar que seuil é a mesma coisa que umbral porque umbral não tem nada a ver com seul que é sozinho em português. Da mesma forma alguém que passou toda a sua adolescência associando umbral a lubrax não vai necessariamente associar seuil com o patrocinador do flamengo. É que as palavras, como os homens, nunca estão isoladas, não há índios isolados, e muito menos sentidos, já que a alteração de determinados sons gera outras palavras que acionam outras regiões da memória numa espécie de cubo mágico em que tentamos com que tudo fique verde mas nunca fica tudo verde, porque nunca vamos terminar de encaixar todos os sentidos numa trama, além do quê não se trata de trama, de trema, nem de cubo ou de sentido, quando tudo é trespassado por sensações químicas que saltam de uma tabela periódica e nos levam à conclusão de que nada é traduzível por nada e tudo é metamorfose. Cada som, cada vogal, cada palavra nanica que seja, toda inteira ou dividida, nos reenvia a outra palavra às vezes por questões infantis, como por exemplo : eu tinha um amigo que ao invés de dizer pizza, dizia pista e tudo ia pelos ares. Até hoje, quando escuto a palavra pizza, em determinadas ocasiões me vem à cabeça um pedaço de asfalto e um entregador de moto. Da mesma forma, sempre que ouço ou leio a palavra seuil me lembro de seul que significa sozinho e que é a palavra que vem logo depois no dicionário. É como se de repente toda um emaranhado de sentidos abrisse a porta e ali no umbral enxergasse uma pessoa sozinha talvez como num quadro do David Caspar Friedrich. E é isso que me inquieta em seuil e não em umbral. É como se de seuil emanasse toda uma imagem fantasmática com aura de infância e envelhecimento, de sonhar com o armário aberto dando no abismo, quando na verdade aprendi essa palavra há pouco mais de um ano ao chegar nessa cidade. E eu tento então repetir pra mim : je suis seul dans ce seuil, au seuil, à lui seul, e pensar que de alguma forma estar seul é ser seuil e tentar se colocar na posição daquele sujeito que está de costas e é a própria umbra do umbral.

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

baladas / badaladas / bagatelas


Outono. Vue d’ensemble. Uma águia sobrevoa os Pirineus em busca de uma presa. Condensa quilômetros de visão num só olhar. O verde e o amarelo das primeiras folhas caídas. Os picos nevados da fronteira. Ela plana e enxerga os mais mínimos detalhes. Os rastros de um cavalo na estrada. Os cogumelos nas árvores. As pessoas dentro de casa.

Uma pessoa diante do computador. Ela abre uma janela, na janela abre abas, nas abas lê textos que levam a outras abas. Ela abre um documento word, escreve um fragmento incompleto, e decide tomar banho. Come um pedaço de sanduíche e deixa o resto. Toma um gole de café e deixa o resto. Acende um cigarro e tem uma idéia para outro texto. Escreve um trecho e deixa incompleto. O cigarro apaga. Ela olha pela janela e presta atenção no som das buzinas.

Ele toma um café numa praça da cidade. Escreve frases, palavras isoladas em pedaços de papel. Ele faz bolinhas com fragmentos de texto e coloca tudo num envelope. Fecha os olhos e se deixa queimar pelo sol da montanha. Toca o sino da igreja.

Eu abro a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Essa janela dá num outro quarto, onde alguém abre a janela. Etc.

Um caçador distribui armadilhas no bosque.

Um menino vai catar cogumelos na floresta. São vários tipos de cogumelos e é a primeira vez que ele sai para colher. Como ele não sabe reconhecer as espécies, ele pega tudo o que encontra. Cogumelos brancos e compridos com um anel no caule. Cogumelos cinzas com bolinhas brancas. Cogumelos de cabeça achatada com bordas roxas e centro alaranjado. O seu amigo assovia e ele volta ao ponto de encontro. O outro menino fica impressionado com um cogumelo laranja dentro do saco. Ele diz que é caro e difícil de encontrar. Mais caro que saboroso, ele diz. O menino fica orgulhoso. O outro diz que ele foi idiota de continuar catando cogumelos de todos os tipos quando tinha encontrado um valioso. Que devia ter assoviado para que explorassem juntos o terreno dos laranjas. Pergunta se ele conseguia se lembrar do lugar onde tinha encontrado. Ele diz que não e, descendo a estrada, continua orgulhoso com o enorme e único cogumelo laranja.

Os predadores costumam olhar de frente e com precisão. Já as presas olham para todos os lados, tentando descobrir de onde virá o predador. Os seres humanos passam constantemente de uma condição à outra.

Uma pessoa pensa na sua formação enquanto escreve uma carta para a faculdade. Eu falo quatro línguas e posso ler outras duas. Eu estudo algo entre a antropologia e a história das cidades. Eu me formei em história, em cinema, em harmonia funcional, em filosofia. Eu escrevo e faço filmes buscando uma interseção entre as artes e as ciências humanas. Um híbrido entre o ensaio, o conto e a crônica. Entre a narrativa e... Os meus temas são : a religião, a psicogeografia, as cidades, os jardins, os metrôs, a memória, o pensamento arcaico. Tudo é futuro e pré-histórico. Basicamente, o que me interessa é a relação entre tecnologia e mitologia, entre ciência e xamanismo, entre técnica e pensamento... Ela pára de escrever e observa as reticências. Apaga tudo e acende um cigarro. Se lembra vagamente de uma frase que busca na Internet. Formation signifies something like a layer of the Earth, geologically formed and deformed by and through the Earth’s evolution. A minha formação, ela pensa. Seria melhor dizer “a minha deformação”. Toda deformação anuncia uma catástrofe, a quebra irreversível de uma estrutura em outra. Não há formação sem terremoto.

Aprofundar-se em algo significa ir fundo, descer, cavar, buscar informações mais detalhadas e encontrar pedras, ossos, fósseis, plástico, gases e animais em decomposição. Mas podemos também dar de cara com lençóis freáticos e objetos preciosos. Normalmente descemos buscando cristais e voltamos com um sapato sem par. Tem gente que se perde e não volta mais. Tem gente que descobre que as grutas não passam de um trompe l’oeil. Outras se deixam enganar voluntariamente. Tem gente que morre de medo quando a luz apaga. E tem gente que não quer mesmo voltar. Parece que elas sentem um enorme prazer em conversar com os mortos. Essas parecem se apoiar naquela frase que diz que “a noite é também um sol”.

Ela desce à cave e começa a retirar as teias de aranha para enxergar melhor, buscando um brilho perdido nos móveis. Um espelho.

Um tesouro está enterrado justamente embaixo de um miserável que pede dinheiro na rua. Alguém busca um tesouro pelo mundo afora e ao voltar descobre que o tesouro estava debaixo da sua própria casa. E, inversamente, depois de percorrer vários mundos, Gilgamesh encontrou a planta da imortalidade, mas já perto de casa, de um buraco saiu uma serpente que abocanhou a erva e desapareceu.

Uirá foi um índio que saiu em busca de Tupã e só encontrou cidades miseráveis. Depois de muito se perder decidiu voltar. Mas a sua tribo não era mais a mesma e ele não suportou a idéia de voltar fracassado. No caminho se lançou numa lagoa cheia de piranhas e morreu.

O caçador ouve o barulho de um tiro que parece ter sido disparado em sua direção.

Uma síntese e um sistema não são a mesma coisa. Eles podem se cruzar, mas não são a mesma coisa. Tanto os sistemas quanto os fragmentos são duros. De um lado um caco de vidro pequeno (que é difícil de partir). Do outro uma pirâmide (que é difícil de derrubar). Há sínteses duras, mas há também sínteses frágeis, tênues, e que não possuem centro. O difícil é acreditar numa síntese sem centro. Ou que a fragilidade é algo positivo. O castelo de cartas está prestes a desmoronar. Um sopro e ele desmorona.

As pessoas dizem que eu escrevo teoria, que eu faço teoria, que eu sou teórica, que eu serei uma boa teórica. Eu desconfio. A palavra teoria está relacionada à observação. Como uma águia que sobrevoa a montanha antes de descer para caçar. Eu pelo contrário gostaria de encontrar uma palavra que se referisse a uma forma táctil do pensamento. Tatear no escuro, com as mãos e não com os olhos. Escrever e observar com as mãos. As mãos têm memória curta.

A águia parece avistar um coelho.

Ela bebe menos, ela busca um tema para a sua tese. Ela tem um namorado, ela quer uma filha. Só falta encontrar uma cidade. Mas ela não encontra a cidade.

Ela abre o envelope que chegou na portaria. São bolinhas de papel. Ela espalha na cama e começa a abrir uma por uma. São fragmentos de texto que nem sempre se conectam, mas que dão uma sensação de outono, de café, de praça ensolarada.

A águia avista uma presa, e desce...

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Mein digitaldoppelgänger
(
http://grooveshark.com/#/album/Cluster+II/3513874 )

Stop Worrying and Love the Bomb
(Stanley Kubrick)

Faut-il être mort?
(Level 5, Chris Marker)


<<< O PC está para a eletricidade assim como
o LSD para a química >>>



Há tempos diante da luz fria, já não consigo discernir o meu olho da tela, a retina do minério, a vida da morte.

Sim. Eu estava online quando encontrei Marker. Ele também estava on. Do seu lado direito eu vi Krasna, do esquerdo Hayao. O seu rosto era o rosto de Laura olhando para a câmera : Lucas, você está aí? Sentamos sobre os trilhos, tomamos ayahuasca juntos e ele me deu um conselho. Lance todas as suas memórias no computador. Vídeos, fotos, textos, livros, imagens da infância e da adolescência, projeções futuras. Passe o caderno dos sonhos no scanner, os odores também, o cheiro dela, o gosto amargo da boca dela. As línguas que você fala, lance tudo no computador. Ele vai pegar, juntar e mover tudo na velocidade da luz. Ele vai cozinhar as suas memórias num enorme mingau. “Mingau” que na sua língua já não quer mais dizer “sopa de tripas”, mas “sopa de bites”. É a mesma coisa. Um caldo sem organização possível, sem estratos. Daí surgirão parâmetros e a partir de então as coisas voltarão a se agenciar. A vida. Sim. It’s alive.

Eu perguntei então se ele tinha encontrado o que buscava, se a morte tinha deixado de ser absoluta de acordo com o seu culto, se o cinema tinha nos libertado. Ele disse que não somos mais os mesmos depois da ressurreição à base de eletrochoques. Preste atenção nesta Gorgó – e apontou para a luz fria –, a morte está mais viva do que nunca, ele disse. Hayao sorriu o sorriso branco do gato da sorte. Krasna levantou as suas asas de coruja. Laura foi embora pelo túnel da Petite Ceinture que passa embaixo do Père Lachaise.

Acordei quando amanhecia. A janela tremia com a chuva e o vento. As nuvens pareciam um mar ao revés. As ondas liberadas pelo sonho estavam sendo captadas pelo eletroencefalograma. Durante intervalos irregulares as linhas pareciam delinear a forma de um rosto. Tomei um café, acendi um cigarro e comecei a fazer exatamente o que ele tinha me dito. Lancei os dados no programa. Todas as minhas memórias, todos os meus desejos, todas as minhas projeções futuras. Enquanto trabalhava não podia esquecer o rosto de Laura olhando para a câmera.

Entrei no metrô, caminhei pela cidade. Tudo estava sendo captado. Assisti televisão durante 16 horas seguidas, simulando uma meditação para que as ondas α fossem interceptadas e algo por detrás se revelasse. O programa calculou durante horas até que encontrou uma variação paramétrica, uma espécie de matéria-fluxo que era a minha própria essência vaga, uma quantidade determinada de Lucas possíveis. Sim. O meu nome já continha esse plural. Dizer que vivemos numa selfculture é dizer que vivemos na cultura dos outros. Eu sou um outro. O inferno são os outros. Cada ser é um coletivo de seres. Uma compilação movente, uma heterotopia (todas as classificações a classificação). Até que...

A minha conta, a minha vida, a minha relação com os outros, os meus reflexos, tudo parece estar sendo customizado. Eu mesmo sou uma customização de massa. A história de uma vida não cessa de ser reconfigurada (digamos deformada) por todas as histórias verídicas e fictícias que alguém conta sobre si mesmo. A minha história está emaranhada às de todos vocês. Me lembro daquela voz que cuando digo usted, usted no existe para mí, y sin embargo, vaya si existe, porque somos este encuentro desde tiempos y espacios distintos, una anulación de estos tiempos y estos espacios, y eso es siempre la palabra y la poesía – um curto circuito. Aberto / fechado / aberto. Um sinal. Uma vibração.

A partir de então o computador começou a expandir a minha personalidade, baixando músicas e textos, fotos e filmes de acordo com os meus hábitos por ele captados. Ele me desdobrou e desdobrou. As minhas senhas foram inseridas no programa. O meu blog, a minha conta de banco, o meu e-mail, o meu telefone, o meu skype (o último refúgio da aura). A partir daquele dia em que decidi me inserir no programa, deixei de existir e fui substituído por um outro. Um autômata, uma espécie de demônio de cobalto. Um djin.

Primeiro, da soma de todos os dados surgiu um esqueleto de imagens fixas, um cadáver, cinzas. Mas ao accionar o programa generativo o cadaver se animou. Ele estava vivo. Eu estava diante do meu doppelgänger computadorizado, sinal da minha morte iminente. Um CsO. Um verdadeiro Frankenstein modelado através da massa descaracterizada de todos os meus desejos e todas as minhas lembranças. Como se eu fosse uma Invenção de Morel inserida num programa generativo. Qual a diferençao entre uma vida e uma memória que se recompõe permanentemente através de deformações topológicas?

A mecânica dos flúidos e seus turbilhões arruinaram a retórica, a geometria, a memória de longa duração. A arte da memória estava baseada numa arquitetura sedentária de lugares fixos, através dos quais distribuíamos imagens-lembranças. Ao percorrer essa forma geométrica éramos capazes de lembrar da nossa vida como se tratasse de um palácio construído pela retórica. Agora, quando o castelo desmoronou, os lugares começaram a ganhar vida. A memória parece ter se deslocado, tornado-se matéria-fluxo. Num processo de inverção dos valores, a longa duração passou a estar subordinada à curta duração. A bomba desestabilizou tudo. É como se no palácio da memória tivessemos encontrado a chave de um quarto sempre trancado. Do lado de dentro os móveis empilhados apodreciam. Teias de aranha e poeira escondiam um enorme espelho. Até que sopramos e passamos para o outro lado.

Agora, o que somos nós se não, justamente, uma memória viva em permanente variação? Coloco no computer toda a memória de longa duração da minha curta vida. Ele gera parâmetros e desenha as sinapses, as micro-fendas que darão liberdade ao doppelgänger. O programa lança as imagens fixas do palácio nos fluxos viscosos do rio Lethe. O rio digital. Um rio gosmento que passa pelo subterrâneo da cidade. O rio do esquecimento entre as catacumbas e o palácio da memória.

O computador é ele mesmo uma contradição, a de querer ter memória e ao mesmo tempo submetê-la a uma possível desaparição. Mas é daí que surge uma arte da memória que escapa à consciência, que é trabalhada pela matéria mesmo do tempo, se ordenando expontâneamente em hélice. Uma arte da memória frágil, tênue, não pirâmide, mas fios da virgem, babas do diabo. Uma mnemotécnica anti-clássica.

Eu vi então que por dentro todos somos screensavers de onde emanam imagens da nossa infância. Entre o ícone e o abstrato, entre a inflação e a valorização da imagem. Chamas artificiais. Variações barrocas emitidas por cordas vocais girando ao redor de uma mesma partitura. Um corpo amorfo traçando caminhos. Distribuindo. Um agregado de imagens-texto saindo da matéria eletrônica. Um misto de fabulação e experiência viva. Um parâmetro móvel, ele mesmo variação. Um gênero cambaleante para várias espécies de Lucas. Formas mutantes para matérias-fluxo.

Diante dessa imagem adormeci. No dia seguinte acordei esquecido de tudo e me deparei com uma paisagem digital. Nenhuma superfície era neutra, todas eram deformações geológicas onde determinadas forças teriam sido armazenadas. Deformações topológicas que nos indicavam caminhos possíveis. Montanhas formadas por textos e imagens. Blobs. Montanhas que pareciam de metal derretido e que se mexiam de acordo com os meus passos. Um palimpsesto vivo. Aquilo era eu. Uma paisagem formada por catástrofes de há cem mil anos. Uma Zona, não um individuo. Um mar de silício de viscosidade variável.

Caminhando senti um enorme prazer que beirava a loucura. E pensava que agora a vida é ela também a vitória do inorgânico sobre o orgânico. Eu sou um lugar e um lugar a gente freqüenta, a gente vibra para torna-lo espaço. Espaço é aquilo que surge quando se atravessa um lugar. Sim. Eu sou uma Zapping Zone. Um cabinet de curiosité feito paisagem mutante. Um terreno baldio do palácio da memória. Uma essência vaga onde crescem vegetações parasitas. Quem por aqui entrar não pode voltar pelo mesmo caminho. Ainda que sintamos o fio de Ariadne estremecendo no bolso.

Eu sou a Zona que se alimenta das lembranças dos homens e das ruínas dos seus hábitos. Como uma Hidra de Lerna, uma constelação formada por estrelas tão fracas que parece uma nebulosa. Um ser de várias cabeças que se regenera permanentemente diante dos golpes da cidade. Uma serpente cancerígena. Um outro. Um doppelgänger que caminha através do plano astral. Ele mesmo é necrópole, galeria de máscaras. Ele que desce à tumba e a tumba que surge com a sua descida. O esquecimento erigido em labirinto. Voilà un trou. Voilà un autre trou.

E caminhando sou um stalker que avança furtivamente distribuindo armadilhas, perseguindo e acossando, um arpenteur em busca da câmara dos desejos, impossível centro do labirinto sem muros.

O psicagogo estava certo. São Lázaro das catacumbas digitais. Vivemos em softwares, galerias subterrâneas de uma grande mina abandonada. Tive dúvida se agora não estaria para sempre dentro daquele sonho, daquele túnel, se teria ou não voltado. Há muito tempo quis descer às catacumbas dessa cidade sem perceber que já me encontro nos seus corredores. Meditando imagino a superfície. Qual superfície? Ela permanece uma questão em aberto. Não sabemos se é o nível do mar, das ruas, a cobertura dos prédios, mais acima, muito mais, um mais-além.

Ouço ondas se estrelando na areia da praia e penso. Me apagarão assim que surgir um desastre ainda maior que o meu e que me anule. Um tsunami digital. Um trem de sombras que nos faça voltar de longe. E abrirei a porta de casa, e não haverá ninguém do lado de dentro, e no segundo andar talvez encontrarei um quarto cheio de bromélias.

Quando eu morrer, ou quando o Lucas do skype morrer, as minhas contas se tornarão runas pulsantes, lápides que continuarão vivas no meu lugar (e sobre elas o orvalho digital). Um cemitério de signos caminhando pela cidade. Um texto areia movediça. Sim. Quando eu morrer me tornarei diagrama.

***

Esse texto mesmo já não foi escrito por mim, mas pelo programa. O último, o entre-meio, o primeiro de muitos.

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

uma testa franzida / um texto

um cigarro / um isqueiro
um livro / um caderno
um café / uma caneta
duas mãos / dois olhos

duas nádegas / um estômago
duas pernas / um pênis
um pulmão / um coração
uma idéia / uma boca

preto / vermelho
branco / branco
preto / preto
cor de pele / verde

cor de pele / marrom
cor de pele / mucosa
roxo / roxo
incolor / mucosa

pequeno / pequeno
grande / pequeno
pequeno / pequeno
grande / pequeno

grande / grande
grande / médio
grande / grande
pequeno / grande

tabaco / gás
papel / papel
líquido / plástico
dedos / retina

colesterol / comida
osso / sangue
ar / sangue
eletricidade / fala

quê mais ?
por onde ando? normalmente pelo 18ème arrondissement dobrando em cada esquina num zig zag sem fim. comendo um sanduíche de pois chiche a dois euros em barbès enquanto observo o movimento. todos ali reunidos : bombeiros, policiais, ambulância e funcionários da ratp revistando os argelinos. chegam duas motos com policiais anos 80. tudo soltando fumaça e vapor. os argelinos parecem até rir. termino o sanduíche e vou caminhando em direção à rue lamarck para explorar uma área do 17ème que não conheço direito. no caminho tenho vontade de entrar nas entranhas do metrô. do lado de fora faz frio. nem tanto. 2 graus. ao invés de descer, entro naquele primeiro pmu que conhecí da cidade. tomei um café no balcão, observando cada um com sua mania. e mais adiante uma livraria curiosa. na vitrine apenas fotos, de forma que ao invés de vermos o interior através do vidro, vemos apenas um muro opaco de fotos que nos mostram como deve ser o interior, ou como foi o interior há 20 anos atrás. e ainda o café de la rotonde, onde aprendi a jogar na loteria. finalmente alcancei o 17ème, esse bairro fronteira entre o leste e o oeste da cidade, entre a resistência e os colaboradores nazi. e comecei a dar voltas ao redor do triângulo entre avenue de saint-ouen e avenue de clichy. na rue davy parece que a metade dos prédios estão abandonados e viveram incêndios há pouco tempo. mais adiante justamente alguns obreiros fechavam as janelas de um prédio incendiado com tijolos de concreto. deve ter sido um squat que pegou fogo. dessa vez senti falta do mapa porque andava procurando uma saída do metrô (da linha 13 talvez), uma saída que dava numa pracinha pequena que não consegui encontrar de novo. não sei porquê me vinha esse dia de outono à cabeça, essa pracinha vazia e a escada do metropolitano... rue de la jonquière. entre uma farmácia e uma lavanderia entro num pátio que parece não ter fim, até que lá no final aparece uma garagem para concerto de camiões. e voilà. mais uma vez a nossa querida petite ceinture. um trecho apenas desse laço que ao invés de apertar a cidade, amplia, amplia, e desenha nesse centro acabado uma linha de fuga. aqui de um lado o maior terreno baldio de paris (onde querem construir uma cité verte mas parecem exitar diante da explosão da linha 13, a mais saturada de paris) e do outro um túnel escuro onde não se vê o fim (não sei se por estar fechado ou se por ser curvo). e de novo a avenue de saint-ouen, onde dessa vez todas as luzes etavam acendidas. neons vermelhos dos bares e tabacarias, neons verdes das farmácias, neons rosas e azuis dos locutórios. as luzes dos carros e das milhares de micro-lâmpadas de natal. no final da rua, depois do enorme M da estação porte de saint-ouen, lá ao longe, provavelmente diante do périph', uma luz estranha, um outdoor talvez. me aproximei para ver o que era e aonde me levaria tanta perspectiva e tanta eletricidade. senti uma espécie de excitação estranha quando percebí que se tratava de um ipad gigante, um anúncio que mais parecia um ciclope diante do anel viário da cidade. e comecei a voltar sobre os meus paços, e virei à esquerda na rue leibniz. nunca tinha percebido aquela estação abandonada da petite ceinture sobre a avenida. o edifício não era especialmente bonito, suas janelas também fechadas com tijolos de concreto (algumas estações da petite ceinture já foram ocupadas e as ocupações já foram expulsas). mas as plataformas sim (tanto graffitti) emanavam uma temporalidade estranha com as colunas de ferro ali sustentando a rua, essa mesma rua por onde andamos agora distraidos ou apressados sem olhar pra baixo. mais adiante outro túnel, com uma data talhada na entrada : 1889. e você me pergunta : por onde anda? continuei voltando seguindo o pequeno boulevard construido sobre o túnel, pensando em botar pilhas na minha lanterna para explorar aquele subterrâneo abandonado. mas virei à direita para voltar pelo cemitério de montmartre, evitando o mesmo boulevard ornano de sempre (evitando porte de clignancourt, simplon...). hoje está mais frio do que ontem. rue caulaincourt. pigalle. rue notre-dame de lorette. casa.

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

The face forgives the mirror

Eu te olho enquanto deixo a barba crescer. No terceiro livro está escrito que “não cortarás o cabelo nas têmporas, nem apararás as beiradas da barba”. Me lembro então daquele menino drogado dizendo “você tem um espelho? eu preciso de um espelho, eu preciso ver o meu rosto, há muito tempo que não vejo o meu rosto, eu preciso de um espelho, você tem um espelho?”. A gente se despede. A rua está coberta de luzes e mais fria que ontem. Acendo um cigarro e atravesso a cidade do terminal ao quadrilátero. A lua é um espelho embaçado pelo teu hálito, o teu cheiro na minha mão direita. Eu... eu... pego uma tesoura e observo. Venta. O tempo passa.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

PESADELO

Metrô again. Vagões brancos. Carrinhos de bebê. De repente a porta abre no meio do túnel. O metrô continua. Treme. Entra um vento frio. Um preto se afasta pra não cair. O bebê, ao revés, caminha em direção ao vão com um cesto cinza nas costas que lhe serve de carapaça. Ele cai do lado de fora do metrô, nos trilhos, no túnel. O vagão branco, o lado de fora escuro, tudo tremendo. A mãe dá um berro e chora.

De repente é noite escura. Exterior. Descemos na estação de trem e voltamos a pé. Já não são trilhos, mas cascalhos. Caminhamos sem encontrar nada, sem lanterna. Nada... Até que dando uma segunda volta pelo mesmo caminho damos de frente com a carapaça, o cesto cinza virado de cabeça pra baixo. Olho dentro e vejo o bebê sem cabeça. Trapos, manchas... Ela chora, eu tremo, ele... A cabeça ali e nós é que não vimos. Colada no corpo, debaixo de um pano. Essa criança... Mexo nele. Está vivo. Vivo, mas a cabeça parece mole.

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

NOTAS DOBRADAS NUM PAPEL (enigmes)


Automóvel, auto-retrato, autocombustão. L’oeil moderne n'est rien d’autre que l’oeil malade de l’artiste. O pássaro está para a mulher (a catarata/raiz na mulher/olho) assim como o macaco está para o junkie (que ele deve alimentar/espantar com a droga).

A escrita chat roulette – pirocas lançadas no acelerador de partículas –, o mundo como pista de dança (os fluidos se interpenetrando, a revolução molecular).

Filme caminhando e pensando em direção à câmera e voltando.

Num quarto alguém dorme. Alguém de longe se aproxima da janela. Quem dormia se levanta com uma espingarda, atira, e volta a dormir. A cena se repete infinitamente.

O corpo nu deitado no ferro frio esperando o raio x. Le Soleil : ondas magnéticas que animam o mundo.

11 = 2. Esaú e Jacó.

11:11 da manhã (horário de Brasília). Eu faço um pedido.

1 - 1/11/07. ?

2 - 1/11/08. Eu chego na Europa.

3 - 1/11/09. Eu vejo um bezerro hermafrodita e sem cú.

4 - 1/11/10. Chego no 13.

5 - 1/11/11. Uma cegonha com uma serpente na boca.

Le baiser. Femme en pleurs. Vampire. Deux êtres humains. Les solitaires. Os seres retratados indo em direção ao espectador, ek-sistindo, se lançando dehors (e naturalmente caindo). As mesmas cenas, as mesmas pessoas, e os fundos se alterando. Boucle, caracol, loop : uma ação determinada (delimitada por dois cortes que marcam o início e o fim) repetida ad aeternum até o despregar do original. Les jeunes filles sur le pont. Puberté. L’enfant malade.

16hs, Sexta-feira, 28/10/11, Cadet com Faubourg Montmartre. Joguei peixes no Astro e perdi. Saíram as seguintes qualidades : solidário, honesto, intuitivo, criativo.

Paysage et cadavres : os nossos reflexos no vidro que protege a pintura. O barulho dos passos (os saltos). Nós ou eles?

Gravure sur bois. Gouache sur papier. Huile sur toile. Épreuve gélatino-argentique.

Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Cara ou coroa ? (bricks, um rosto de signos e worm holes, o riso sem-vergonha de uma linda Chilindrina) :

T’aimes bien être vue, n’est-ce pas?

T’aimes bien être vue et te cacher...

E a cidade te suga – mó buraco negro, areia movediça de significantes (minhoca gigante boquiaberta) metrô vácuo espacial – túnel do tempo – você chupado pela ausência de pressão num Turkish Airlines Boeing 737-800 baleado pelo frio entre Amsterdam e Heemstede – e já não sonho e já não escrevo e já não penso – o piloto automático, o chão perto demais : labirinto é um conjunto de órgãos do ouvido interno dos vertebrados responsáveis pela manutenção do equilíbrio, labirinto é também uma forma de bordado e um órgão que permite a troca gasosa respiratória aérea – agora o peixe (Afrodite) pode respirar o oxigênio do ar, sim, porque a água do pântano tinha pouco o calor subindo pelas entranhas da cidade, atraindo vers le bas um cheiro a betume, lagos de asfalto, altares em fogueiras ou não seria ao revés alô? Oui, câmbio, confirmado : as formigas continuam seguindo aquela linha de feromona em direção ao vazio.

Você vira a página – a cidade é de calcário – verde que te quero cinza – Enigma :

une femme charmante ou un bon noir

fait un petit trou bien rond

dans votre rectangle de carton

E de repente não. E de repente um vôo celerado de repente a luz que escapa do buraco negro – velocidade de escape = velocidade necessária para libertar-se do planeta Terra (não, um objeto auto-propulsionado pode deixar a gravidade da Terra a qualquer velocidade, assumindo que haja combustível suficiente e o objeto esteja acelerando para além da superfície atravessando a fenda e au-delà eis que) sem campo gravitacional me faço Astro, Terra Total – nem congelado nem movediço : a Mar em sua totalidade : vários tons de azul, viagem imóvel e (meu filho, não perca a pontuação) voando de repente as linhas brancas (nebulosas) desenhadas pelos aviões (cometas) são cortes de cocaína que vou sniffando com o canudinho gigante (pensamento aspirateur) – e de cima vejo a cidade (trompe l’oeil à vol d’oiseau) e a velocidade vê-se tudo de uma vez (lichtung de repente Aleph) parêntesis – não mais constelação e tudo desliza e já não há correspondência nem ciclos contíguos nem montagem pero intensidades, composições de fluxos aerodinâmicos – amontoado de basura tudo junto fazendo-se uma só e enorme crotte diagrama em decomposição e um detalhe do rosto de repente se altera – o frio normalmente negativo lá se faz elétrico e leve – eletricidade como forma de ser leve – não me pergunta por quê ã?

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

ÉterNauMente
pro Fernando querido

Os cabelos e unhas nunca resolvidos, a tesourinha talhando o infinito, deixando-se levar pelo impulso, o corte, sem pensar muito, o espelho triplo do banheiro.

A mente se recompõe muito rápido, o corpo não. Se você corta a mão de uma pessoa...

Cruzando o Boulevard Ornano, chorando de cabine em cabine, de taxiphone em taxiphone, seguindo a sua peregrinação – olhando pra baixo, déficit do nervo troclear – o ser humano é um bicho que se acostuma com qualquer situação.

O cérebro se regenera como uma lagartixa. Imagina o cérebro deixando um rabo no caminho, mecanismo de defesa pra atrair o predador.

Anos 20. Me hipnotizo olhando pelo buraco da fechadura. Ela brilha. Do outro lado sentada na cama, um manto, seus seios, o cabelo curto e encaracolado, as mãos segurando o frasco perto do nariz. Do éter tudo colhe tons foscos verdes, amarelos, marrons.

Al-di-là um chão de signos sobre dançando ela pés em cavidades surgem eco, fumaça, pensamento Iansã e

Mais uma vez na floresta de mesas e cadeiras. O verde claro brilhante da serpente. Um susto. A cobra que está e de-repente-não.

Aparece entre as árvores um bar chamado Buraco Negro. Fechado. Todos os punks se foram. From Alien Sex Fiend to Franz Schubert and back again.

A fechadura bordada em metal - cabelo encaracolado é o nome dela. Do orifício emana uma luz de-repente-acesa, de-repente-fechadura. O cheiro doce e amargo. Ela aspira ainda mais forte o frasco o frescor.

Ser gay na Galícia é duro, por isso todos se foram pra Argentina. Esperando na estação ele tira a maçã da mochila e morde. O motorista olha e ri : “hombre, que comes manzana! Debrías llevarte perico!”. Voltando pra casa dos pais depois de anos fora. Anos de heroína em Roma e autostop a Paris, de movida madrileña e miragem catalã. Perico é um pássaro, um periquito, é um apelido, um povoado em Jujuy, uma cidade fantasma no Texas. Perico é um prato tradicional na Colômbia e na Venezuela. Perico significa Pedro, perico na Galícia significa cocaína.

Ela acreditava no eternamente. Sem memória, inteligência, previdência. Sem discernimento, separação, prudência. Ele não acreditava no eternamente. Via o presente, o passado, o futuro e entrou pelo cano.

Buraco Negro. Tem gente que vive com medo de olvidar. Tem gente que não. O ser humano se acostuma com qualquer situação. O céu aberto e nublado. O mesmo céu. A senhora fecha o cadeado e vai embora mancando.

Sempre olhe pra cima, minha filha. Você anda tão desalinhada... Você tem que se assear : o hábito não faz o monge, mas recomenda.

Até que um dia vejo que devemos respirar pela barriga pra que o ar atravesse todo o pulmão, e que a coluna se quebra quando olhando demais pra cima, e que devemos estirar o pescoço como se tudo puxasse pro alto fazendo de conta que estamos dependurados numa forca, segurados pelo alto e puxados pra baixo, olhando pra baixo, o nervo patético é

Flamengo, anos 20. De repente vejo a mim mesmo do outro lado da fechadura.
Sinto tanto frio e tanto calor.
Então tira a roupa.
Ela chupa, morde e cospe a cabeça do pau dele. Espécie de São Denis Fuzz Face Jimi, a mucosa continua pulsando enquanto ele sai mudo, acéfalo, cortando a noite calma do bordel. A garrafa vazia de éter no chão.

Can hear bells ringing, must be Sunday.
Can see the sun, must be Sunday.
Can hear cars, must be Monday.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

aqui também um poema para espantar o tempo do relógio (era na verdade uma idéia de filme que surgiu).
te dedico o passatempo :

S de Seine
S de serpent
S de to see the sea
S de stack
S de sirène
S de secours
S de sauver le suicide
S de se savoir solitaire
S de faire semblant
S de silence
S de sens
S de sans sens
S de sang
S de santal
S de souhaite
S de sensible
S de snifer soudainement
S de soulage
S de soir
S de salut
S de sortie
S de souffle
S de souple
S de sentir son sexe
S de son
S de section
S de seringue
S de surgir
S de suivre un souvenir
S de Swan
S de statue
S de soleil
S de sagitaire
S de saint
S de salamandre
S de sur (réel)
S de sous (développé)
S de sûr (été)
S de survol
S de satélite
S de surveiller
S de strate
S de souci
S de stade sensori-moteur
S de snob
S de sécurité sociale
S de survivre
S de Superman
S de sujet
S de sujette
S de surmonter
S de suer en soudant
S de sec
S de sidérurgie
S de socle, de surgeler
S de chais pas, de science
S de sous-bois
S de serpent
S de Seine

o rio pensamos que vai pra baixo quando há também partículas que sobem, basta observar.

Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Morro Azul


O terreno era curvo e repleto de inclinações. O primeiro que me vem à cabeça é o pé de graviola. Graviola não, acerola. As frutas enormes juntavam passarinhos ao redor do pé. Me lembro também do milharal perto da quinta, da vertigem de montar pela primeira vez, e depois o mato e as framboesas pelo caminho.

Uma vez um raio caiu dentro da casa. E digo “da casa” e não “de casa” porque a casa não era minha. Vi do corredor. Caiu no banheiro e ela dentro. Ela no banho e de repente um clarão. Parece mentira, mas o banheiro tinha justo o espaço do raio e da criança – um do lado do outro entre os ladrilhos brancos. E foi tão rápido e barulhento que ela saiu surda e cega – nós ali olhando sem dizer nada, a casa vazia. Ela veio do banheiro sonâmbula, foi pra cama, se cobriu dos pés à cabeça e ficou lá no casulo. No dia seguinte já não se lembrava. No dia seguinte foi ela que nos tirou dali.

Era uma menina de sardas e cabelos encaracolados. Família da Tijuca, ele do Leme, eu da Gávea. Me lembro uma vez apostamos quem ia conseguir dar um beijo nela primeiro. De repente era de noite, eu num dos quartos lia a história do Saci pra outra criança quando a porta : posso entrar? O arrepio foi ver ela vir ouvir a história do meu lado. Ela já tinha peitos e eu estava quase encostando. Mas logo no final, quando a criança já dormia, ele entrou dizendo que tínhamos que ir, que ele tinha visto um fogo voando no meio do jardim. Eu sabia que não veríamos nada além de vagalumes, mas me levantei mesmo assim, talvez até aliviado enquanto ele sorria esperando com a mão na maçaneta.


***


E na volta o resto do dia nos fundos, diante da porta brincando com as antenas, ainda que o medo das Vermelhas. 1956. Era quinta-feira de lava-pés quando o príncipe disparou no seu irmão caçula. Detrás da casa a pistola era presente do Franco – o tiro entre as sobrancelhas não se sabe se acidente. O morro apinhado de formigueiros de onde a trilha até o chão da área. As Marias Pretinhas (ou Vagabundas) tinham desenhado uma linha invisível com várias camadas de feromônio – versão obreira sem asa do Caminho de Santiago. E com pinças e fósforos raptávamos duas, deitávamos antenas fora, e emborcávamos um pote de vidro sobre elas. Encerradas no Coliseu não se reconheciam. Sem as antenas não podiam se cheirar, e se tocavam sem se tocar, se estranhavam, e começavam a luta. Cortavam as patas uma da outra, uma por uma, às vezes se suspendiam no ar, e ganhava a que tivesse mais membros no final – a não ser que surgisse uma tão forte que logo zás! cortava a cabeça da outra. Depois escurecia e os restos eram classificados. De um lado as cabeças, do outro corpos, patas e finalmente antenas, tudo amontoado em cemitérios de formigas e ao lado o pote vazio que refletia agora uma luz artificial.


***


Cavo ainda mais fundo e surge algo embaçado. Uma casa de pau-a-pique no meio da estrada mais acima, um morro, uma velha senhora falando kimbundu, uma dinda esclerosada que já ninguém prestava atenção ninguém tinha –, aquela imagem queimando no cachimbo. Ela sentada olhando de cima pro nada – nada?, falando lé com cré – nada de nada?, como é que será que morreu – será que morreu?

Domingo, 14 de Agosto de 2011

Pierre qui roule n’amasse pas mousse.

(ditado)

Sábado, 13 de Agosto de 2011

Sento agora todos os dias neste bar e escrevo. Estrela de São Roque. Parece que o Herberto Helder vinha sempre aqui. Aqui e no restaurante galego do outro lado da rua. O dono é um senhor simpático e de vez em quando mal humorado. Como deveria de ser, como são os bons senhores, como serei eu. Entram estrangeiros. Entram crianças para comprar sorvetes. Nunca ninguém fica. A televisão nem sempre acesa. O bar escuro. A luz que entra pela porta. Uma luz pálida sobre o interior do bar verde. As garrafas empoeiradas, distantes umas das outras. O pé direito alto. Os ponteiros do relógio seguindo um sentido sinistrógiro. E o senhor que não diz, mas sabe que é o sentido certo : menos um, menos um... De repente dois rapazes entram enquanto ele fuma do lado de fora. Um deles me aponta um revolver e pede o meu computador. O outro observa com calma. Eu digo que não, que aqui tenho toda a minha vida, que atire. Ele dá de ombros e atira. É realmente uma câmera lenta. A bala perfura primeiro a tela de cristal líquido e depois o peito. Primeiro o desktop e depois o pulmão. O sangue do computador é amarelo e azul brilhante. O meu é de um vermelho escuro e espesso. Sorrio e morro abraçado com o computer. Silêncio. Eles vão embora correndo.

(...)

Ó minha Lilith, minha querida e virgem Lilith, meu querer! Maçã numérica, cifra secular, perdição lunar! Quantas noites brancas aquecendo minhas pernas, meus lençóis! Ó meu tigre digital! Minha caverna! Meu labirinto murmurante! Meu aleph! Adeus baby blue!... Adeus!... O senhor volta do cigarro e acende a luz fria. Anoitece.

Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011

de dentes e jujubeiras.



Na Galícia acordei de um sonho em que os meus dentes se separavam e separavam e as gengivas apareciam e me via no espelho e era horrível. O espelho e essa boca-entranha aberta me lembram agora a história e imagem da Gorgó - seus olhos abertos e esbugalhados, os dentes enormes saindo da boca escancarada, imagem congelada e refletida - essa morte especular que espreita, eu mesmo feito outro, objeto d'objeto. <<< E o siso que está ainda nascendo (já não sei quantos). O corpo em permanente metabolismo. Os cabelos que continuam crescendo depois de mortos. O corpo que é também mineral. Carrega a morte dentro de si. >>> A morte é a vitória do mineral sobre o orgânico, o dente fica, ficará, por milênios - o osso é o eterno dentro do efêmero, o osso é queimado e oferecido aos deuses, enquanto nós, mortais, comemos a carne do animal morto, e por isso somos nós efêmeros e os deuses eternos - o deus é um bicho que se alimenta de ossos tornados fumaça.

Quando acordei achei que era verdade, que era feio, horroroso, a boca se fecha, o pudor da boca fechada, abrir a boca é se mostrar, mostrar os dentes, abrir a boca é se dar ao outro.

Quando adolescente usava aparelho, e depois que parei de usar os dentes se moveram, mudaram um pouco de lugar, e no sonho tinha esse medo, de que eles se separavam e mudavam de posição porque eu teria parado de usar aparelho sem devê-lo. Quando tinha uns 20 anos arranquei o aparelho da boca com um alicate. E o aparelho agora, sempre, de alguma forma os dentes me remetem ao cavalo. Talvez devido às embocaduras que usamos no animal, como freios e bridões. Talvez porque, de olho na boca do cavalo, calculamos a sua idade analisando os seus dentes. Talvez porque dominação, porque nobreza do animal subjugado. Dei de comer a cavalos nesse dia de domingo na Galícia - eles estavam bastante selvagens e famintos. Descobri então que o cavalo de raça lusitana é mais feroz e difícil de domar. O pai do David soltando um e eu abrindo os olhos, a impressão que deixou aquele bicho.

E me lembrei dos Espartos. Édipo (que significa aquele de pés inchados, que peca, pecado significa tropeçar, pecar vem de pé), Édipo é descendente dos Espartos (os Semeados), família ctônica que surgiu dos dentes semeados de um dragão. >>> Dentes-semente, o dragão é símbolo da fertilidade feminina, se encontra em grutas e florestas. Um dragão que foi morto (um dragão assassinado) por Cadmo, um dragão que defendia uma fonte numa floresta, uma nascente, uma mãe d'água, dragão-mãe-d'água.

Gruta - grota - grotesco - boca e cú, entranha. A boca aberta da Gorgó, paralisada, os dentes da morte. Escatologia que vem de escatos = último, uma rama da teologia que trata do final do mundo. Boca. Gengiva. Dentes como sementes enterrados na gengiva. O cú como boca. O proctologista como um "dentista do cú".


* * *


Os dentes são muitos. São toda uma civilização. Os dentes-pessoas. Que rangem e brigam entre si. Que geram ruído. Associados aos olhos. São mil olhos. Que nos observam. Onde há uma luz há um olho que nos observa.

Os teus dentes caindo era pura insegurança. Medo mesmo.

Te filmei. Filmei os cavalos selvagens. Filmei o bingo em Madrid. Faltam agora os dentes. E esses nossos óculos que se entre-olham. Entre-chocam. Desconfiados. Como chifres. Os teus com reflexos verdes. Os meus arranhados. Dispersando a luz.

Como se a casa fosse uma imensa gengiva. E nós o dente. E de vez em quando cresce. E de vez em quando aperta. E de vez em quando a dor de dente.


* * *


Recorte do Dicionário dos Símbolos (Jean Chevalier, Alain Gheerbrant) :


Perder os dentes é ser despossuído de força agressiva, de juventude, de defesa : é um símbolo de frustração, de castração, de falência. É a perda da energia vital, ao passo que a mandíbula sadia e bem constituída atesta a força viril e confiante em si mesma.

A tradição védica parece atribuir um sentido semelhante aos dentes, e em especial aos caninos, cuja força agressiva deve ser domada. São eles :


Dois tigres que avançam para baixo,

Procurando devorar o pai e a mãe,

Ó Agni, tornai-os propícios !

Sede pacíficos e de bom augúrio !

Aquilo que, da vossa substância, é temível

Ó dentes,

Que se vá para outro lado.


A poesia galante persa, tal como a européia, compara os dentes com as pérolas ou com as estrelas fixas ; muitas vezes, também com o granizo : Um orvalho caiu dos narcisos (teus olhos) como a chuva, e regou as rosas (tua face) ; tranformado neste granizo que alegra a alma (os teus dentes), crivou as jujubeiras (os teus lábios).

Finalmente o dente é um instrumento de tomada de posse, que tende para a assimilação : a mó que esmaga para fornecer um alimento ao desejo.

Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Leather Nun Slow Death

cansaço / o calor dos últimos dias / banzo / ainda não vi o rio da cidade mas já posso sentir o mar / o cheiro / as ruelas formando um labirinto / como se um pensamento trama / complô / as pedras escorregadias / o caminho / as escolhas / direita esquerda / as ladeiras / você adora uma ladeira / ela disse / as mil ladeiras da cidade / e é por isso que vim pra cá / penetrando / onde tem ladeira você vai / onde tem ruela / encruzilhada / onde luz amarela e céu avermelhado / onde rua / onde beco sem saída / onde dealer / garoto de programa / onde travel travail travelo / até o fim e depois volta / a falta de caminho do beco / cul-de-sac / corte / crime passional / que é reencadeamento / imagina um rio sem ponte / atravessando países / cidades / cortando e soando um silêncio alto / um rio muro / uma autopista muro / no trespass / violação de propriedade / densidade corroendo o in / relação que se torna inimizade / 70 mil euros de cobre roubado / os rastros enferrujados / o armazém vazio de noite / e estipulam / especulam / espeluncas / reflexos / que se multiplicam em nada / mil vezes nada soando alto / um silêncio alto / not a bridge / not a door / no body / e digo chega então / dessa luz que nada atravessa / esse texto / essa busca pelo terceiro sexo / tessitura / luz matinal / chega de café da manhã / a gente sabe que é tudo mentira / levanta a cortina / vá / dê uma olhada no rio / viu / escuro né / taca-se pedra / eco sintético / de repente o rio congelado / e talvez apenas fios / elétricos / lá no alto / atravessam / puro corte / choque mesmo / colocar o dedo na tomada quando criança / levar eletro-choques quando adolescente / caçar e colher nas ruelas da cidade / esta repetição que exalta e enfraquece o texto / o melhor sempre pior / cada dia pior / estou bem quer dizer aqui tá frio / ela diz / você entende / digo / uma cidade de pedra / rostos de pedra / tudo de pedra / escorregadio / cansaço banzo / os miolos desmilinguindo numa pasta informe / o calor da última semana / sete mana dizem eles / uma mulher então entra no bar e pede água com gás / é de dia / um dia arrastado e preso / a luz branca / ofuscando / eclipsando / mas o bar não precisa de luz / e é mais fresco aqui dentro / e não posso fumar / ela pede um vaso um baso uma copa / um copo / corrijo ela / e ela ri / e copo / se diz / corrigir o outro / colocar a carne dentro do molde / e observar os sotaques que surgem / os vazios / dolorosos / ela vem sentar ao meu lado / é a única mesa do bar / tem quatro cadeiras / ela senta do meu lado / não na minha frente / eu olho a nuca dela / a minha está cortada / eu já disse? / uma linha reta / perfeita / que surge dos meus cabelos / um sangue já escurecido / pois foi ontem à noite / e tento lembrar / caminhava pelas ruelas da cidade beco / a imagem dela na tela / na cabeça / a tela como retina / o azul da tela e ela de lado / ela cristal líquido / carnuda / encurvada / não preciso dizer que está / not to do / to be / nua / amarrada e nua / na cama / não vejo a cama / na tela / a tela cama retina / tudo mineral / a mulher do bar abre agora um jornal / está em italiano / e continuo escrevendo / esse calor / essa tela aberta numa mesa de bar / um certo silêncio britadeira / mas péra / tenho então que lembrar / era noite / a cidade vazio amarelenta / amar / amarelo / maré / amar é lenda / um que outro recanto cheio de gays / o mirante com cheiro de maconha / e vou andando / perdido nos pensamentos e na corcunda / digo / na mochila a garrafa / o prazer de tocar na máquina de cigarros / o marlboro vermelho caindo / as moedas engolidas / tragamoedas / caçanickel / esses nomes mais humanos que nós / e dou continuidade / ruptura quer dizer / outro imperial no caminho / gazes / zonas / direito esquerda / dragão no caminho / onde / de repente / sentinela quer dizer pé frio / tá-se bem / guardar o caminho / e me pergunto / como pode ser que a fertilidade seja tão pretensiosa / que se queira assim guardiã de um ninho / pois então a gente rouba / os ovos várzeas / capilares / a gente chuta / o bicho / um angolano na ruela / ya / um cigarrinho ele pede / vem um segundo e pá / faca of / quer dizer / face off / ya / a lâmina / pausa / vamos chama-lo de joão couteau / por quê não? / enquanto pego o maço o outro faca / cuchillo / ça / não foi bem assim but / há de se preservar les visages / assim faz-se de conta que (não) eres perdedor / a queda não tão tua / a mó / pressão da lâmina em tua nuca / ya / o dragão andrógina / digo / eles me fudendo eu fudendo ela / você na tela / a mucosa / que lindo / olho de novo a nuca dela / os pelinhos / ela mirando a rua / um negão / baise-moi / outro negão / um terceiro negão / e quando falo negão é dourado mesmo / encima de mim / me colocam com força no chão / à força / que históra é essa de luminosidade tangente / vai pro diabo / não grita se não te corto / não te preocupa / fala baixo / tudo bem / leva tudo / qual é a senha? / não tem / a senha caralho / não tem senha / pode levar a corcunda / a mochila / os anéis / mas / cala a boca / eu vou chamar a polícia alguém grita / ela abre as pernas / os olhos brilhando / códigos luminosos piscando / dinheiro mesmo / se você continuar se mexendo eu te furo / a mucose dela / brilhando / os lábios de onde vieram / os dentes / esvazio os meus bolsos / um canivete / canino / um caderno / maço de cigarros / as chaves dela não minhas / ele pressiona mais forte o estilete na minha nuca / penetra fundo / e pego nos cabelos dela / começa a sangrar / um sangue já escuro / você consegue imaginar um sangue branco? / a vir / quer dizer / a ver / já que não sei com quê me corta / não sei dizer / pode ser uma seringa / na nuca / o cabelo fino / digo / no escuro da tela / no meio-fio / contaminando / o animal agora possui caninos que injetam / chifres / e é de alguma forma puro osso / passo a mão / as pedras escorregadias da cidade / ela na tela mostrando as curvas / de lado / amarrada / amarelada / digo / em silêncio / penetrando / a imagem mucosa / alguém fala que vai chamar a polícia / agarram então a minha corcunda / me carregam / a mochila / digo / pr’outro beco / es decir / muñeco soy / a mulher do bar chama o seu marido estalando os dedos / ele vem sorrindo o bigode / bebem todos água com gás / a rua ao lado mais iluminada / a luz que é mira / a senha / caralho / eu sei a senha / e o prazer de não dizê-lo / e daí é me soltar dos braços dele / e sair correndo / eu prum lado / eles pr’outro / essa retina / tela cama ruína / não me violaram / é pena / acaba então a bateria / pois eles levaram o carregador / in / dentro da corcunda.